"O Terceiro Livro de Esdras"
O Terceiro Livro de Esdras (3 Esdras)
(também chamado “Primeiro Livro de Esdras” na Septuaginta)
Contexto histórico e textual
O 3 Esdras é uma obra pseudoepigráfica, ou seja, atribuída ao escriba e sacerdote Esdras (ou Ezra), mas escrita posteriormente, provavelmente entre 150 e 100 a.C., em ambiente judaico helenizado.
O texto sobreviveu em grego, fazendo parte da Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento), e foi amplamente usado nas comunidades cristãs de língua grega.
Na Bíblia Católica, este livro não é canónico, embora tenha sido lido e citado pelos Padres da Igreja como texto edificante.
Foi incluído na Vulgata sob o título “3 Esdras”, distinguindo-se dos Esdras canónicos (Esdras-Neemias) e do 4 Esdras (Apocalipse de Esdras), que é posterior e mais visionário.
Estrutura geral
O 3 Esdras reconta, de forma paralela e literariamente mais livre, episódios já conhecidos dos livros canónicos de 2 Crónicas, Esdras e Neemias, mas com adições únicas, sobretudo a famosa disputa dos três guardas perante o rei Dario, que é exclusiva deste texto.
A estrutura pode ser dividida em sete partes:
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A queda de Jerusalém e o exílio na Babilónia (baseado em 2 Crónicas 35–36).
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A leitura pública da Lei e o restabelecimento do culto.
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O concurso dos três jovens guardas do rei Dario.
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O triunfo de Zorobabel e o édito de reconstrução do Templo.
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A lista dos exilados que regressam.
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A reconstrução do altar e do Templo em Jerusalém.
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A reforma moral e religiosa conduzida por Esdras.
O contexto narrativo: do exílio ao retorno
O texto começa com a recordação da queda de Jerusalém e da profanação do Templo por Nabucodonosor.
Os sacerdotes são mortos, e o povo é levado para o cativeiro babilónico — um trauma histórico que marcará profundamente a espiritualidade judaica.
Depois de décadas, surge o rei Dario da Pérsia, sucessor de Ciro, que já havia permitido o regresso de parte dos exilados.
É neste contexto que ocorre o célebre episódio literário e teológico do livro.
O concurso dos três guardas
Esta é a secção mais célebre e única de 3 Esdras (3:1–5:6), sem paralelo em nenhum outro texto bíblico.
O rei Dario, após um banquete, adormece; três dos seus jovens guardas escrevem cada um uma frase, debatendo qual é a força maior do mundo.
As frases são:
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O vinho é o mais forte.
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O rei é o mais forte.
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As mulheres são as mais fortes — mas acima de todas, vence a verdade.
De manhã, Dario convoca o tribunal real para ouvir as argumentações de cada um.
O primeiro defende o poder do vinho — que torna todos iguais, ricos e pobres, sábios e tolos.
O segundo fala do poder do rei — capaz de mandar e matar à vontade.
Mas o terceiro, Zorobabel, discorre com sabedoria profunda:
“As mulheres dão à luz os reis, e os reis são criados por elas.
O homem abandona pai e mãe e se apega à sua esposa; por ela trabalha, por ela vive, por ela morre.
Mas, acima de todas as coisas, reina a verdade, pois ela é eterna e imutável.”
Estas palavras comovem o rei e o povo.
Dario proclama:
“Grande é a verdade, e mais forte que tudo!”
Em recompensa, Dario concede a Zorobabel o pedido que desejar; e este pede que os judeus sejam libertos e autorizados a reconstruir Jerusalém e o Templo.
Assim, o verbo da verdade torna-se instrumento de libertação.
O regresso e a reconstrução do Templo
Seguem-se capítulos paralelos a Esdras-Neemias:
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Zorobabel lidera o regresso dos exilados.
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É reerguido o altar das ofertas.
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Lê-se solenemente a Lei de Moisés, símbolo da renovação espiritual.
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São purificados os sacerdotes e o povo.
O texto enfatiza que a restauração não é apenas material, mas moral:
“Não se edifica o Templo de pedras, mas de corações fiéis.”
O autor helenizado do 3 Esdras quer mostrar que a verdadeira Jerusalém começa na fidelidade à verdade — um tema que se tornará central também no cristianismo primitivo.
Temas teológicos e morais
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A verdade como poder supremo
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A verdade, expressão da sabedoria divina, é superior à força, à riqueza e à autoridade humana.
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Antecipação do conceito joanino: “A verdade vos libertará” (Jo 8,32).
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A mulher como símbolo da criação e da humanidade
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A reflexão de Zorobabel eleva a mulher como princípio de vida, contrapondo-se ao materialismo e à tirania.
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A exaltação feminina aqui é incomum nos textos judaicos, revelando sensibilidade helenística.
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A justiça do rei e a soberania de Deus
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Dario é instrumento do desígnio divino, um “rei justo” que executa a vontade de Deus — ideia recorrente na literatura sapiencial.
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O Templo e a renovação espiritual
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A reconstrução simboliza a restauração interior do povo de Deus.
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A Lei é vista não apenas como mandamento, mas como caminho de verdade.
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Idolatria e verdade
O 3 Esdras contrapõe a idolatria — isto é, a mentira e o engano — à verdade, que é eterna.
A idolatria é vista aqui em sentido moral e intelectual: adorar o poder, o vinho ou a beleza é adorar o que é passageiro.
Zorobabel mostra que só a verdade é digna de ser adorada, pois reflete o próprio Deus.
“Tudo passa, mas a verdade permanece;
tudo mente, mas a verdade não mente;
e com ela está o julgamento de Deus, eternamente.”
Esta concepção espiritual é compatível com a doutrina cristã posterior:
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A idolatria é o afastamento da verdade divina;
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A veneração de símbolos sagrados, por sua vez, é expressão de fé na Verdade invisível que eles apontam — não o culto de coisas criadas, mas o louvor do Criador através delas.
Valor literário e canonicidade
O 3 Esdras foi amplamente lido na Igreja antiga.
S. Jerónimo considerava-o útil para edificação espiritual, embora não inspirado.
Na tradição ortodoxa oriental, continua a ser lido em algumas versões da Bíblia (sob o título 1 Esdras).
Foi excluído do cânone católico no Concílio de Trento (1546), mas incluído no Apêndice da Vulgata como “de leitura piedosa”.
A sua exclusão deveu-se a:
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Sobreposição de material já presente em textos canónicos;
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Origem grega tardia e possível influência helenística;
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Falta de reconhecimento nas listas hebraicas e rabínicas.
Conclusão crítica
O 3 Esdras é um dos mais belos testemunhos do judaísmo helenizado:
uma obra em que a verdade é exaltada como fundamento do mundo e medida de toda a justiça.
A sua mensagem atravessa os séculos e ecoa nos evangelhos e na filosofia cristã primitiva.
“Nem o rei, nem o vinho, nem a mulher,
mas a verdade, que é de Deus,
permanece para sempre e vence todas as coisas.”
Assim, o 3 Esdras ensina que a fidelidade à verdade é o verdadeiro culto, e que toda a restauração exterior — seja o Templo, seja a sociedade — começa pela pureza interior da consciência.
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