"A minha sede de aprender"

Há em mim uma força que não me deixa ficar imóvel — uma inquietude doce e incandescente que me empurra, sempre, para o conhecimento. Não sei estar parada quando sinto que há mais para compreender. É como se o próprio mundo me chamasse, em murmúrios e silêncios, a mergulhar nas suas camadas invisíveis. Estudar, para mim, não é uma obrigação; é uma forma de respirar, uma forma de existir com mais consciência e verdade.

Comecei com um estudo bíblico. Pensei, no início, que talvez bastasse — que aquele mergulho espiritual me traria o repouso interior que tantas vezes procuro. Mas à medida que avançava, mais perguntas surgiam. O coração não se saciou, o espírito não se deu por satisfeito. Senti a necessidade de ir além, de compreender melhor, de me aproximar das origens — e foi assim que iniciei o estudo do Antigo Testamento.

Não o faço por ritual, nem por curiosidade superficial. Faço-o porque quero entender as raízes da fé, as histórias antigas que ainda respiram dentro de nós, os símbolos, as vozes, os silêncios. Quero compreender o tempo em que o humano e o divino se tocavam sem mediações. E quanto mais estudo, mais percebo que conhecer as Escrituras é também conhecer-me a mim mesma — nas minhas dúvidas, nos meus medos, nas minhas esperanças.

Ao mesmo tempo, o meu caminho pelo conhecimento não se limita à espiritualidade. Gosto de aprender tudo o que me ajude a compreender o ser humano. Por isso estudei gestão de conflitos e comunicação — porque as relações humanas são um dos maiores campos de aprendizagem. Aprendi que comunicar é escutar com o coração, é compreender antes de responder. Que gerir conflitos não é vencer, mas restaurar.

Depois veio a psicologia, com as suas muitas janelas sobre a alma. Estou a estudar duzentas horas dedicadas ao autoconhecimento, ao autocontrolo e ao desenvolvimento pessoal, especialmente para compreender e ajudar as crianças. E quanto mais aprendo, mais percebo que educar, apoiar e cuidar é uma arte delicada — e que tudo começa dentro de nós. Só quem se conhece pode compreender verdadeiramente o outro.

Fiz também uma pequena formação pedagógica, não porque quisesse um título, mas porque sinto uma vocação natural para compreender a forma como as pessoas aprendem, sentem e crescem. Não quero colecionar certificados; quero crescer por dentro. O que me move não é o reconhecimento, mas o entendimento.

E, mesmo assim, continuo com sede. Por isso, volto-me também para a arte — para a pintura, a música e a escrita criativa. Porque há verdades que não cabem em teorias, há emoções que só se expressam em cor, em som ou em palavra. Quando pinto, é como se libertasse o que a mente não consegue explicar. Quando escrevo, as palavras tornam-se espelho da alma. Quando ouço música, o espírito encontra o ritmo secreto da vida.

Não me interessam as conversas vazias, as críticas fáceis, os julgamentos apressados. Prefiro o silêncio fértil do estudo ao ruído das vozes que falam sem pensar. Prefiro a companhia dos livros e das ideias à superficialidade das opiniões. Há quem gaste tempo a apontar o que está errado nos outros — eu prefiro investir esse tempo a construir o que pode ser melhor em mim.

Não quero ser mais do que ninguém. Quero ser eu, mas eu com mais consciência, com mais sabedoria, com mais paz. Quero saber não para exibir, mas para compreender; não para brilhar, mas para iluminar o caminho que percorro. O conhecimento, para mim, é um acto de amor — uma oferenda silenciosa que me transforma todos os dias.

E quando encontro alguém disposto a partilhar saberes, sinto uma alegria que não se explica. Paro, escuto, absorvo. São momentos raros e preciosos — quando duas mentes se encontram sem competição, quando o diálogo é verdadeiro e o aprendizado mútuo. Nesses instantes, o mundo parece mais leve, e a vida, mais justa.

A minha busca não é ambição: é vocação. É um chamamento interior, uma necessidade de crescer para dentro, de compreender o mistério de existir. Quero aprender, não para ter razão, mas para ter sentido.

Enquanto houver algo por descobrir — e haverá sempre — permanecerei neste caminho. Com a alma aberta, o coração atento e a mente desperta. Porque estudar, para mim, é amar o mundo com inteligência. É uma oração sem palavras, uma forma de dizer: “estou viva, e quero compreender o dom que é estar aqui.”


Manifesto da Alma Inquieta

Eu recuso a estagnação.
Recuso o adormecimento manso das almas que se contentam com o pouco.
Recuso o conformismo elegante de quem vive a repetir verdades alheias.
Eu quero mais — não mais do mundo, mas mais de mim.

Quero o pensamento vivo, a dúvida que me move, a curiosidade que me fere e me salva.
Quero o silêncio que antecede o entendimento e a palavra que nasce limpa, depois da reflexão.
Quero saber, mas não para dominar. Quero saber para libertar.

Há quem gaste a vida a medir os outros, a julgar, a apontar.
Eu não quero dedos, quero mãos abertas.
Mãos que criem, que aprendam, que abracem, que escrevam, que semeiem.
O meu tempo é demasiado sagrado para o desperdiçar com mesquinharias.
Prefiro a solidão de um livro à multidão que não pensa.
Prefiro o estudo à crítica, o gesto à acusação, o silêncio lúcido à tagarelice vazia.

Não procuro títulos — procuro significados.
Não procuro reconhecimento — procuro clareza.
Não quero ser a que sabe mais, quero ser a que compreende melhor.
Porque compreender é amar de forma inteligente.

O conhecimento é o meu acto de rebeldia.
É o meu grito contra a superficialidade,
a minha oração contra a ignorância,
a minha celebração da lucidez.

Estudar, para mim, é um acto de fé humana
fé na possibilidade de nos tornarmos mais conscientes,
mais bondosos, mais inteiros.
Cada curso que faço, cada livro que leio, cada tema que me inquieta
é uma ponte entre o que sou e o que ainda posso ser.

Quero mergulhar nas Escrituras e escutar o que o tempo ainda murmura.
Quero compreender o coração das crianças e o silêncio dos adultos.
Quero olhar para dentro e ver-me sem máscaras.
Quero aprender a dizer com mais ternura, a calar com mais sabedoria, a agir com mais justiça.

Há em mim uma fome serena e indomável.
A fome de saber, de sentir, de tocar a verdade das coisas.
A cada descoberta, algo dentro de mim desperta.
E é nesse despertar constante que encontro o meu sentido.

Eu não quero ser admirada, quero ser verdadeira.
Não quero ser seguida, quero ser livre.
E se o mundo não entende, paciência —
porque a minha alma não pede aprovação, pede expansão.

Estudar é a minha revolução.
Pensar é o meu acto de coragem.
Aprender é o meu modo de amar.

Eu não quero o brilho raso da exibição,
quero a luz profunda da compreensão.
Quero a sabedoria que não pesa, que não se impõe —
aquela que se traduz em gestos, em empatia, em presença.

E se um dia me chamarem inquieta, que seja.
Sim, sou inquieta —
porque a alma que se aquieta demais morre de leveza.
Prefiro o fogo que arde em silêncio à calma morta da indiferença.

Eu sou feita de busca, paixão e pensamento.
Sou feita de perguntas, de sonhos, de livros abertos e olhares atentos.
Sou feita de fé — não a fé que se impõe, mas a que ilumina por dentro.
E enquanto houver um mistério por decifrar,
um ser humano por compreender,
um fragmento de verdade escondido no tempo,
eu continuarei —
aprendente, ardente, inteira, desperta.

Porque aprender é o meu modo de existir.
E existir, para mim, é não parar nunca.



Epílogo – O fogo sereno de existir

E então, quando o silêncio se faz dentro de mim, eu compreendo:
não era o saber que eu buscava —
era o sentido.
Era a chama que acende o pensamento,
a luz que não se vê mas guia,
a voz antiga que sussurra dentro da alma:
“Continua. Ainda há mais.”

Eu sou essa busca.
Sou o movimento entre o que ignoro e o que descubro.
Sou o intervalo entre a dúvida e a revelação.
Sou feita de perguntas que me sustentam e não de respostas que me aprisionam.
E é nessa travessia — árdua, luminosa, infinita — que encontro o que realmente sou.

Há um instante, breve e eterno, em que o conhecimento deixa de ser ideia
e se torna respiração.
Nesse instante, percebo que aprender é amar a vida em todas as suas linguagens.
Aprender é tocar o mistério e aceitá-lo,
é deixar que o mundo me ensine sem me possuir,
é receber o tempo com humildade e devolvê-lo em compreensão.

Não há fim na minha aprendizagem,
porque o espírito que desperta não volta a dormir.
O saber é o meu caminho, o meu altar e a minha oferenda.
E se a vida me desafia, eu aceito —
com o coração nu, com a mente aberta, com a alma em chama.

Não peço glória. Peço verdade.
Não quero aplausos. Quero sentido.
Quero continuar a crescer, mesmo quando dói,
porque o crescimento é a dor sagrada da expansão.

E quando me chamarem intensa, eu sorrirei.
Quando me disserem que sinto demais, eu direi: sim.
Porque só sente demais quem vive desperta.
E só vive desperta quem ama o saber como quem ama o ar.

Eu sou essa mulher —
feita de perguntas e esperanças,
de estudos e silêncios,
de fé e curiosidade,
de ternura e coragem.

E se um dia o mundo me calar,
ainda assim, em mim, o eco do conhecimento continuará a ressoar —
livre, luminoso, eterno.

Porque há um fogo em mim que não se apaga.
Um fogo sereno, antigo, essencial.
O fogo de existir conscientemente.
O fogo de aprender para amar melhor.
O fogo de ser — inteira — humana.




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