"O Bilhete, o Saco e o Espetáculo da Pequenez"

Parece que estão com saudades minhas, será saudades de um agradecimento meu. 

Acho que é só carência, vamos resolver desta forma eu escrevo e partilho para que todos vejam, centenas de pessoas a verem tudo o que me ofertarem e escreverem. 

Porque há pessoas que, incapazes de acompanhar a dança da vida, preferem atirar lama para o salão. Chamam-lhe humor. Eu chamo-lhe carência afetiva com tinta permanente.

O episódio começou inocente, quase banal. A tarde estava luminosa, o mundo parecia alinhado, e eu, ingénua, deixei-me enganar.
Fui à pastelaria da minha prima — lugar de classe, de café que cheira a pertença e chávenas que tilintam como sinos de uma pequena liturgia quotidiana.
Conversas, risos, doçura. O tipo de normalidade que, em retrospectiva, parece sempre o prelúdio da tragédia cómica.

Depois, o passeio com a mesma prima e o Perseu — o pit bull mais nobre que já vi, mistura de força e ternura, poesia em quatro patas.
Antes, passei pela antessala — a antecâmara do silêncio,e segui para a loja social, e avisei a minha madrinha de que ia demorar-me um pouco. Trabalho na casa mortuária; sei reconhecer quando um aviso é uma cortesia entre vivos.

Quando regressei, a madrinha já tinha ido à igreja rezar o terço — a fé tem horários rigorosos.
E foi então que o destino, sempre com um sentido de humor peculiar, decidiu surpreender-me: um saco pendurado à porta da loja social, com um presente e um bilhete.

A minha prima, testemunha ocular do insólito, ficou estática, como se tivesse acabado de assistir a uma queda de civilização em tempo real.
“Não acredito”, disse. E eu, que trabalho entre defuntos, pensei: há mortos que falam melhor do que certos vivos escrevem.

O bilhete, esse monumento à gramática em agonia, era uma tentativa de insulto travestida de originalidade.
Um amontoado de vulgaridade a tentar parecer ousadia, de inveja mascarada de humor.
Lê-lo foi como observar alguém tropeçar no próprio intelecto — com o entusiasmo de quem acredita que está a dançar.

Há ofensas que se dissolvem no ar por falta de substância. Esta, pelo contrário, era sólida na sua miséria — quase comovente.
E ainda assim, no meio da estupidez, havia algo de profundamente humano: a incapacidade de amar sem ferir, de admirar sem odiar.

Ri-me. Não com o riso leve de quem se diverte, mas com o riso denso, maduro, de quem já viu demasiada carne e pó para levar o ridículo a sério.
O riso de quem percebeu que o grotesco é apenas o sublime que perdeu educação.

Não respondi. O silêncio é a mais elegante das bofetadas.
Mas escrevi, dentro de mim, o epitáfio que o episódio merecia:

“Aqui jaz a tentativa de ofender alguém que já não habita a mesma dimensão emocional.”

E, como em tudo na vida, fiz o meu voluntariado , fui para casa e servi-me outro café — forte, quente, lúcido — e deixei o resto aos mortos, que, ao contrário de certos vivos, ainda sabem guardar respeito. Mas claro que trouxe o bilhete e a prenda embora meu marido não utilize, a nossa vida sexual está muito bem e eu tenho o dispositivo no braço esquerdo para não engravidar. Mas posso abrir uma exceção e usar. 

Agradeço imenso a atenção dispensada.

A fotografia da minha prenda, que deixaram com tanto carinho na porta da loja social que ajuda crianças. 

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Comentários

  1. O humor com que escreves isto é de uma leveza. Obrigada por responderes aos emails que envio, obrigada por escutares e sempre utilizares da gentileza. O texto que mais tocou o meu coração foi sem dúvida "o brilho oculto do Alexandre... " . Sentimos a autenticidade e a dor. Espero que meus filhos nunca se encontrem num estabelecimento de ensino,ou com uma professora assim. Acompanho o que escreves com muito carinho, como disse gostava de te conhecer pessoalmente deves ser uma pessoa especial. Muito feliz do Alexandre ter superado tudo e tu também. Continua a escrever e a iluminar os meus dias.

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  2. Olá, Mónica.
    Primeiramente agradecer as palavras, é com imensa alegria que vejo o quanto a história do meu filho tocou milhares de pessoas, agradeço os emails a motivar que enviaste, principalmente porque sempre começava com, " como está o Alexandre" . Como referi, quando existir disponibilidade será um prazer a conhecer pessoalmente. As nossas trocas de emails são sempre de troca de motivação e conhecimento. Tudo que acontece são lições e não existe vilão absoluto, assim como heroínas. Um abraço e obrigada.

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