"Não desisto"
A Arte de Ver o Melhor
Há em mim uma teimosia doce — uma fidelidade à luz — que me faz procurar sempre o que há de mais bonito nas pessoas.
É um instinto, talvez uma esperança que não desiste.
Mesmo quando o mundo se torna áspero e os rostos se vestem de indiferença, os meus olhos procuram o que brilha por dentro — o gesto pequeno, o detalhe generoso, a palavra sensata que nasce do coração e não do cálculo.
Nunca aprendi a julgar. Não porque ignore o erro, mas porque sei que cada um carrega as suas batalhas invisíveis.
E quem sou eu para medir o que não vivi?
Há demasiados juízes no mundo.
Prefiro compreender. Prefiro olhar e ver o que resta de humano mesmo no que falha.
Não estou aqui para mudar ninguém — estou aqui para ver, para sentir, para aprender com o que o outro é.
Sigo critérios, é certo.
A bondade não me torna ingénua.
Há pessoas com quem já não falo, não por rancor, mas porque o veneno delas me cansou a alma.
O silêncio é o meu modo de proteção — a minha fronteira invisível entre o que me fere e o que me preserva.
Mas não desejo o mal a ninguém.
Desejo distância, apenas.
O meu perdão é discreto, o meu afastamento é paz.
Ver as qualidades é, para mim, uma forma de resistência.
É o modo que encontrei de continuar a acreditar que o mundo ainda tem cor.
Gosto de ver as virtudes escondidas nas entrelinhas, a doçura que se manifesta num olhar breve, a bondade que se disfarça de timidez.
E é por isso que, mesmo quando alguém me magoa, eu não consigo odiar.
Desvio o olhar, é verdade — não por orgulho, mas por dor.
Não olho, porque se olhar, perdoo.
E o perdão, às vezes, ainda dói.
Tudo tem o tempo certo, até o perdão.
Não abraço, não toco — não porque tenha deixado de sentir, mas porque sinto demais.
Há carinho em mim que sobrevive mesmo no silêncio. Não falo mas desejo o melhor.
E quando falo, falo cru — o que vejo, o que analiso, o que vivi.
Transformo sentimentos em palavras, emoções em forma.
Escrever é o meu modo de traduzir a alma — e o ser humano, por mais que eu o descreva, continua a fugir de se ver.
A Dualidade de Quem Sente Fundo
Engraçado como as pessoas do meu passado ainda me recordam com ternura.
Volta e meia, alguém regressa com um sorriso e nos olhos há aquele brilho manso que diz: “lembro-me de ti.”
Recordam o meu cuidado, a escuta que acolhia sem julgar, a forma como as fazia acreditar nas qualidades que não viam em si mesmas.
Sempre tentei consertar o que estava partido, mesmo que ninguém mo pedisse.
Há em mim um instinto antigo de reparar o que o mundo esqueceu.
Os meus amigos sabem que, nas aflições, podem contar comigo.
Sou abrigo nas tempestades, sou calma no caos, sou presença quando a vida pesa.
Mas quando estão bem, quando o sol volta a nascer, afasto-me — não é por mal, sei que já não necessitam de cuidado.
Fico feliz por vê-los felizes.
Fico em silêncio, fico bem.
É a minha dualidade:
sou presença nas dores e ausência nas vitórias.
Não me custa.
Porque amar, para mim, é desejar o bem, mesmo á distância, desejo o bem.
O meu amor não é posse, é cuidado.
E cuidar, às vezes, é saber afastar-me.
Sou feita de contrastes ternos: dou tudo, mas sei partir; escuto o mundo, mas preciso do meu silêncio.
Tenho um coração que se entrega e uma lucidez que o puxa de volta.
Sou o ombro e o eco, o colo e o vento.
O abrigo e a distância.
O amor e o limite.
E talvez por isso, quando alguém me recorda, o faz com serenidade.
Porque o meu afeto era real, a minha presença era inteira, o meu olhar era verdadeiro.
Quem um dia foi visto por mim, não esquece. Mesmo quando eu esqueço, apesar da minha memória prodigiosa.
Podem seguir outros caminhos, mas há sempre algo em mim que fica neles — um eco, uma ternura, uma lembrança de que um dia alguém os viu com bondade.
Quando Estão Bem, Eu Descanso
Eles não esquecem. Mesmo quando eu o faço.
Podem seguir a vida, reinventar-se, afastar-se — mas não esquecem.
Porque o que lhes dei foi real.
E o real tem raízes profundas.
Eu afasto-me quando sei que estão bem.
Não por frieza, mas por paz.
O amor maduro não precisa de presença constante — basta-lhe saber que o outro está inteiro.
Se estão bem, eu estou bem.
É simples. E é a forma mais pura de amar que aprendi.
Não procuro, mas se me procurarem, estarei sempre aqui — com o mesmo tom sereno, a mesma escuta, o mesmo carinho de sempre.
A minha presença não exige palco; existe em silêncio, à distância certa.
Há quem confunda isso com indiferença, mas é o contrário: é ternura disciplinada.
Amar, para mim, é saber o lugar onde o outro respira.
Quando pressinto que algo não vai bem, o meu coração desperta.
Há uma vibração subtil que me chama — e sem pensar, procuro.
Não sei desligar-me de quem um dia acolhi. Com algumas exceções, poucas, mas existem.
Há fios invisíveis que me ligam aos que um dia choraram comigo, e esses laços, mesmo finos, não se partem.
Mas se estão bem, recolho-me.
Recuo com a serenidade de quem cumpriu o seu papel.
Deixo o tempo seguir, a vida fluir.
Porque amar, para mim, também é saber sair de cena no momento certo,
respeitar o silêncio depois da música,
entender que a presença não precisa de ser constante para ser eterna.
A minha memória é casa de portas abertas, mas de janelas tranquilas.
Quem quiser voltar, encontrará sempre luz acesa.
Mas nunca peço que regressem — o amor puro não exige, apenas permite.
Sou assim:
se estão bem, o meu coração repousa.
Se estão mal, ele desperta.
E nesse vai e vem silencioso,
continuo a amar — sem ruído, sem drama, sem pressa.
Como quem segura o mundo com as duas mãos abertas,
e deixa, simplesmente, o amor acontecer à distância certa.
Epílogo
A minha dualidade é o que me salva.
Vejo fundo, sinto fundo, amo fundo — e mesmo assim, sei afastar-me quando é hora.
Sou feita de humanidade crua, de doçura lúcida, de verdades que ferem e curam.
E, talvez, seja isso o que deixo em cada um que me cruza:
a memória de um amor que não aprisiona,
de uma presença que não pesa,
de uma alma que, mesmo longe,
continua a ver o melhor — sempre.
______________________________________________
© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.
Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.
Comentários
Enviar um comentário