"Entre a Fé e o Medo"
Reflexão sobre a Educação Cristã e a Liberdade das Crianças
Eu era para continuar a escrever sobre o estudo dos apócrifos e da Bíblia — confesso que ontem a aula foi fascinante. As camadas de texto, as interpretações, o eco de séculos de fé e dúvida, tudo isso desperta em mim uma fome de conhecimento que não se apaga. Mas, hoje, não consigo concentrar-me nisso. Há algo mais urgente que me inquieta: a postura de certos pais cristãos, a forma como educam os filhos através do medo e não do amor.
Sou católica, sim — de coração e de consciência.
Mas a minha fé não se impõe, testemunha-se.
Não obrigo, não manipulo, não negocio com o meu filho para que vá à igreja.
Transmito-lhe, sim, os valores que devem habitar o coração de quem acredita: respeito, honestidade, humildade, compaixão.
A fé, para mim, não é uma coleira. É um caminho de liberdade interior.
E, no entanto, observo — com espanto, confesso — pais que vivem a fé como se fosse um manual de proibições, um código de medo, uma doutrina sem alma.
O Medo Disfarçado de Virtude
Não exijo notas excelentes ao meu filho.
Ele, por vontade própria, nunca me trouxe menos que um “muito bom”, mas sei que isso não o define, nem a mim.
O valor de uma criança não se mede em números nem em comparações.
Há quem não compreenda isso: há pais que vivem obcecados pela perfeição, como se a infância fosse um treino militar para a aprovação social.
E agora, recentemente, algo que parecia banal tornou-se uma espécie de guerra santa: um simples trabalho de Halloween.
Vi pais recusarem que os filhos participassem, com argumentos de fé e moralidade.
Respeito a decisão — cada um educa como entende.
Mas até onde vai o direito do pai e onde começa o direito da criança de descobrir o mundo?
O Olhar das Crianças
Observo-as, quando saem da escola.
Falam entre si, meio em segredo, meio em sussurro:
os que fizeram o trabalho de Halloween serão “castigados”, “tentados”, “amaldiçoados”.
Dizem-no com um misto de inocência e medo, como se a escola tivesse aberto uma porta proibida.
Vejo-as olharem para os colegas mascarados, curiosas, fascinadas, desejosas de participar — mas presas por um medo que não é delas.
Têm vontade, mas falta-lhes permissão.
Querem brincar, mas foram ensinadas a recear o próprio riso.
O que é isto?
Que fé é esta que ensina o medo em vez da confiança, o julgamento em vez da alegria, a censura em vez do discernimento?
A Fé que Liberta vs. a Fé que Amarra
Não faço isso com o meu filho.
Ensino-lhe que Deus não é um fiscal de comportamentos, mas um olhar de amor que compreende o erro, a dúvida, a vontade de crescer.
Não o educo para temer, mas para discernir.
O medo paralisa; a fé esclarece.
Há pais que, assim que viram costas, veem os filhos correrem para pedir uma máscara emprestada, admirarem os trabalhos que não puderam fazer, sorrirem em segredo.
E não percebem o que estão a criar: crianças que aprendem a agir nas costas, a esconder, a mentir, a enganar — tudo em nome da obediência.
Estão a formar corações divididos, mentes culpadas, consciências que associam fé a repressão e mentira a sobrevivência.
A Escolha e o Exemplo
A fé não é um conjunto de proibições.
É uma relação viva com o divino, construída na liberdade e na consciência.
Um filho não aprende a amar a Deus porque é forçado — aprende porque o vê incarnado nos gestos do pai e da mãe: na bondade, na verdade, na paciência.
A autoridade cristã não se impõe pelo medo, mas pela coerência.
E o exemplo, esse, é o mais poderoso dos sermões.
Se queremos filhos verdadeiramente cristãos, temos de ser pais verdadeiramente humanos.
Não é nas regras que a fé floresce, é no coração que escuta e compreende.
O Peso das Palavras
Um dia, essas crianças crescerão.
E talvez se lembrem de quando quiseram pintar uma abóbora e lhes disseram que era pecado.
Talvez se recordem de quando quiseram participar num jogo e lhes disseram que o inferno as esperava.
Talvez, no futuro, olhem para a fé com a mesma desconfiança com que hoje olham para as máscaras.
E é aí que tudo se perde: quando o medo substitui o amor, quando a obediência mata o discernimento.
Porque Deus não deseja servos amedrontados — deseja corações conscientes, livres, autênticos.
Conclusão: A Fé como Caminho e Não Prisão
Eu sou católica.
Mas não creio numa fé que vive de proibições, nem numa moral que ensina a temer o que não compreende.
Creio num Deus que se alegra com a curiosidade, com a liberdade e com a verdade.
Creio numa educação que forma consciência, não submissão.
E, acima de tudo, creio que a maior herança espiritual que posso deixar ao meu filho é a capacidade de pensar com fé e sentir com liberdade.
Porque a fé que não permite o riso, a dúvida e a escolha não é fé — é medo mascarado de virtude.
E disso, Deus bem sabe.
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