"Agora"

 Agora.

Ainda é agora.

O instante acabou de acontecer e eu escrevo, para não deixar fugir o sentido que ele trouxe.

Hoje, o passado bateu-me à porta — discreto, astuto, disfarçado de coincidência.
Não fez barulho, não gritou. Apenas tocou, com a mesma suavidade com que um pensamento se infiltra no coração.

Por um momento, senti aquele velho aperto no peito — o eco de histórias antigas, o som abafado de lembranças que julgava adormecidas.
O passado tem esse dom inquietante: chega sem avisar e instala-se na alma como quem quer saber se ainda há espaço para ele.
E veio testar-me.
Veio perguntar-me, em silêncio, se ainda sou a mesma mulher.

Mas não sou.
Hoje sei que o passado não vem para me assombrar, vem para medir o meu crescimento.
Ele veste-se de lembrança, de pessoas, de palavras familiares.
Aparece nas brechas da carência, na fragilidade da saudade, na vaidade antiga de querer provar que mudei.
Mas o amadurecimento, aprendi, é reconhecer o ciclo antes que ele recomece.
É ver o disfarce e sorrir com serenidade.

Há pouco, alguém me disse: “A culpa é tua.”
E essas palavras caíram sobre mim como chuva fria.
A culpa? A culpa de quê?
Fiquei a olhar, imóvel. Não respondi.
Virei costas e segui o meu caminho.

Mas enquanto caminhava, senti o pensamento a insistir.
E agora, neste instante de silêncio, medito sobre isso.
Porque há culpas que pesam e há culpas que são apenas projecções — tentativas de outros se libertarem do que não conseguem suportar em si.

Já aceitei as minhas.
As verdadeiras.
Já pedi perdão a Deus, muitas vezes, por tudo o que fiz e pelo que deixei fazer, pelo que omiti, pelo que permiti.
Bati no peito, confessei, chorei, e continuei.
Não sou perfeita — nunca fui —, mas o arrependimento sincero abriu-me os olhos.
Hoje, quando me acusam, não sinto raiva; sinto apenas distância.
Uma distância doce, que é sinal de paz.

O passado pensa que ainda me conhece.
Pensa que ainda me pode encontrar nas mesmas dores, nas mesmas promessas, nas mesmas carências.
Mas hoje, quando ele voltou, encontrou outra mulher.
Mais calma.
Mais lúcida.
Mais silenciosa.

Percebi que responder seria ceder.
Seria voltar ao lugar de onde lutei tanto para sair.
E então calei-me.
Porque o silêncio, às vezes, é o grito mais sábio.
É a oração de quem confia que Deus sabe tudo, até o que o coração não consegue dizer.

Agora compreendo: o passado não vem para me destruir.
Vem para confirmar que estou curada.
É como se dissesse: “Vim ver se ainda doí.”
E hoje, não doeu.
Apenas senti uma leve nostalgia, não de querer voltar, mas de agradecer o quanto caminhei desde então.

Segui em frente, e ao fazê-lo, senti uma paz profunda — dessas que não se explicam, apenas se reconhecem.
Uma paz que nasce quando já não é preciso justificar-se, nem provar nada, nem defender-se de quem não quer compreender.

O passado é curioso, mas também é frágil.
Desarma-se quando percebe que já não tem poder.
E é nesse instante que o vejo sorrir, talvez com ironia, talvez com resignação.
E eu sorrio também — não com orgulho, mas com ternura.
Porque o que ficou para trás não foi perdido. Foi superado.

Hoje escrevo para lembrar-me disto.
Para que, quando o passado voltar a bater — e sei que há-de voltar —, eu saiba reconhecer-lhe o toque e não abrir.
Para que eu recorde que crescer é aprender a ouvir o eco das velhas dores sem lhes responder.

Deus sabe que lutei, que me arrependi, que tentei ser melhor.
E é Ele quem me dá agora esta serenidade suave, esta certeza tranquila de que o perdão existe, e que a graça cura aquilo que o tempo apenas adormece.

Hoje, neste exacto agora, sinto-me grata.
Grata pelo silêncio, pela paz, pela lição.
Grata por ter percebido que não preciso de me defender, porque o que é verdadeiro permanece, e o que é injusto dissolve-se diante da verdade divina.

O passado bateu-me à porta — e eu, desta vez, não abri.
Apenas murmurei dentro de mim:
"Obrigada por vires lembrar-me quem já não sou."

E assim deixo escrito, para memória e testemunho do que vivi:
que hoje — neste instante preciso, sagrado, irrepetível — eu aprendi a lição.

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