"Evangelho dos Nazarenos"
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Estudo histórico, teológico e crítico
Introdução
O Evangelho dos Nazarenos (às vezes referido como Evangelho segundo os Hebreus dos Nazarenos) é um dos textos cristãos judaico-cristãos mais antigos, estreitamente ligado às origens do cristianismo palestinense.
Trata-se de uma versão aramaica do Evangelho de Mateus, utilizada pelas primeiras comunidades cristãs de língua semítica — especialmente os nazarenos, grupo de judeus que acreditavam em Jesus como Messias, mas que mantinham a observância da Lei de Moisés.
O texto já não existe na sua forma integral; sobrevive apenas em citações de autores patrísticos como Jerónimo, Orígenes, Epifânio de Salamina e Eusébio de Cesareia.
Apesar de fragmentário, o Evangelho dos Nazarenos constitui uma testemunha preciosa das formas mais antigas da tradição evangélica e da convivência entre o judaísmo e o cristianismo nascente.
Contexto histórico
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Datação: cerca de 70–120 d.C., possivelmente anterior à redação final do Evangelho grego de Mateus.
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Língua original: aramaico ou hebraico popular (alguns estudiosos admitem um hebraico galileu).
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Proveniência: região da Síria-Palestina, provavelmente nas comunidades de Jerusalém ou Cesareia.
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Autor: anónimo; talvez um tradutor ou compilador do Evangelho de Mateus para uso litúrgico local.
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Utilizadores: as comunidades nazarenas e ebionitas, dois ramos do cristianismo judaico do século I–II.
Quem eram os Nazarenos?
Os Nazarenos eram judeus que reconheciam Jesus como o Cristo, mas não abandonavam a Torá.
Aceitavam a ressurreição de Cristo e o nascimento virginal, e consideravam os apóstolos autênticos mestres da fé.
Diferiam dos ebionitas, mais rigoristas, por aceitarem a divindade de Cristo e a sua concepção miraculosa.
O termo “nazareno” aparece já no Novo Testamento, designando os primeiros seguidores de Jesus (cf. Atos 24:5).
Os nazarenos constituíam, assim, uma ponte entre o judaísmo e o cristianismo helenista, preservando tradições autênticas de origem palestinense.
Transmissão e fontes patrísticas
O texto original perdeu-se, mas fragmentos e citações encontram-se em:
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Jerónimo de Estridão (De viris illustribus, Comentário a Mateus)
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Epifânio de Salamina (Panarion)
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Orígenes (Comentário a João)
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Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica)
Jerónimo afirma explicitamente ter tido acesso ao Evangelho dos Nazarenos, escrito em hebraico, e que o traduziu parcialmente para latim e grego.
“O Evangelho que os Nazarenos e os Ebionitas usam, que eu há pouco tempo traduzi do hebraico para o grego...”
(Jerónimo, De viris illustribus, cap. 3)
Conteúdo e particularidades textuais
Os fragmentos conhecidos mostram um texto muito semelhante ao Evangelho de Mateus, mas com leituras variantes e adições de sabor judaico.
Abaixo, algumas passagens reconstruídas:
O Pai-Nosso
Segundo Jerónimo, a versão nazarena do Pai-Nosso dizia:
“Dá-nos hoje o pão nosso do amanhã.”
Esta expressão (“pão do amanhã”) acentua a dimensão escatológica da oração — o pão eterno do Reino de Deus —, enquanto a versão grega posterior (“pão de cada dia”) traduz uma leitura mais quotidiana.
O jovem rico
Noutra passagem, quando o jovem pergunta a Jesus o que deve fazer para ser perfeito, a resposta contém uma adição:
“E disse-lhe o Senhor:
‘Como podes dizer que guardaste a Lei e os Profetas, se entre os teus irmãos há tantos que morrem de fome e a tua casa está cheia de bens?’”
Este detalhe reforça o ensinamento moral de partilha e justiça social, profundamente enraizado na ética judaica.
A mulher pecadora
O Evangelho dos Nazarenos também contém um episódio semelhante ao da mulher adúltera, em que Jesus diz:
“Se o acusador é culpado do mesmo pecado, que não o acuse, pois duas vezes será culpado.”
Esta formulação, mais severa, sublinha o princípio rabínico de autopurificação antes de julgar o outro.
O Servo Sofredor
O texto apresentava Jesus em perfeita continuidade com a profecia de Isaías:
“Meu servo será exaltado e será chamado Filho de Deus.”
Aqui, o evangelho acentua a ligação profética e messiânica, mais do que a cristologia helenista.
Teologia e espiritualidade
A teologia do Evangelho dos Nazarenos é profundamente judaica e ética, centrada em três eixos fundamentais:
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Jesus como cumprimento da Lei e dos Profetas – o Messias que não destrói, mas aperfeiçoa a Torá;
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Fidelidade à Aliança – o seguimento de Cristo passa pela prática da justiça, da misericórdia e da pureza;
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Universalismo em continuidade – o evangelho destina-se a todas as nações, mas nasce da raiz de Israel.
Não há sinais de gnosticismo ou especulação helenista: o texto é tradicional, moral e profético.
A Lei e o Evangelho
O texto harmoniza a observância da Lei com o amor cristão.
Jesus é visto como mestre da interpretação autêntica da Torá, não como o seu substituto.
A “nova aliança” é a plenitude da antiga, e não a sua negação.
A ética da partilha
A ênfase na caridade e no auxílio aos pobres é constante.
A salvação manifesta-se na misericórdia ativa e na solidariedade — eco da espiritualidade de Tiago, irmão do Senhor.
Valor histórico e textual
O Evangelho dos Nazarenos é de valor incalculável para o estudo das origens cristãs, porque:
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preserva a forma semítica de ditos de Jesus, possivelmente mais próxima do original;
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mostra o cristianismo antes da separação definitiva do judaísmo;
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oferece leituras independentes que ajudam a compreender a formação do Evangelho de Mateus.
Muitos exegetas modernos consideram que Mateus grego e o Evangelho dos Nazarenos derivam de uma fonte comum aramaica, possivelmente o “Evangelho hebraico” mencionado por Papias.
Razões da exclusão do cânone
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Uso restrito – apenas em comunidades judaico-cristãs;
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Autor desconhecido – sem ligação apostólica directa reconhecida;
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Persistência da Lei Mosaica – vista como teologicamente ultrapassada pelo cristianismo universal;
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Tradição textual fragmentária – nunca circulou amplamente nas igrejas de língua grega e latina;
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Ausência de original completo – impossibilitou a sua verificação doutrinal integral.
A exclusão, contudo, não decorreu de heresia, mas de circunstâncias históricas e linguísticas.
O texto foi considerado respeitável, mas local e incompleto.
Conclusão crítica
O Evangelho dos Nazarenos é uma das janelas mais claras sobre o cristianismo semita original, nascido da fé de Israel e da pregação de Jesus em contexto judaico.
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Historicamente, mostra o esforço dos primeiros discípulos em unir a fé no Messias com a fidelidade à Lei.
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Teologicamente, propõe uma visão de Cristo como mestre da justiça e da misericórdia, não apenas como redentor sacrificial.
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Espiritualmente, revela um cristianismo enraizado na tradição profética, centrado na caridade e na pureza do coração.
Em síntese:
O Evangelho dos Nazarenos não é um evangelho rival, mas uma variante semítica e ética do Evangelho de Mateus — uma ponte entre a Sinagoga e a Igreja, entre a Antiga e a Nova Aliança, testemunho precioso da fé nascente que via em Jesus o cumprimento perfeito da promessa feita a Israel.
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