"O Pastor de Hermas"

 

O Pastor de Hermas


Contexto histórico

O Pastor de Hermas foi escrito em Roma, por volta do ano 100 a 150 d.C., em grego koiné.
É uma das obras cristãs mais antigas fora do Novo Testamento e pertence ao grupo dos apócrifos do Novo Testamento.

O autor é identificado na própria obra como Hermas, um cristão romano de condição humilde.
Segundo a tradição antiga, seria o mesmo Hermas mencionado por São Paulo em Romanos 16,14 — embora isso nunca tenha sido provado.

A obra foi tida como inspirada por vários escritores antigos, incluindo Irineu, Orígenes, Tertuliano (antes da sua ruptura com a Igreja) e Eusébio de Cesareia, que a classifica como “útil para leitura espiritual, embora não canónica”.


Autoria e género literário

O Pastor de Hermas é uma obra profética e alegórica, semelhante ao Apocalipse de João ou às Visões de Daniel, mas de natureza mais moral do que escatológica.

Trata-se de um conjunto de visões e parábolas simbólicas que Hermas afirma ter recebido de um anjo em forma de pastor, enviado por Deus para o guiar e corrigir.

O livro tem um propósito pastoral: chamar à conversão e à pureza de vida os cristãos que, após o baptismo, tinham voltado a pecar — um tema de grande debate no século II.


Estrutura da obra

A obra divide-se em cinco partes principais:

  1. Cinco Visões (Visiones)

  2. Doze Mandamentos (Mandata)

  3. Dez Parábolas (Similitudines)

Estas secções correspondem, respectivamente, à revelação, moral e simbologia da vida cristã.


As Visões

As cinco visões formam o núcleo místico da obra.
Cada uma representa um grau de revelação espiritual e de purificação interior.

🔹 Primeira Visão — A mulher e o Livro

Hermas vê uma mulher idosa que representa a Igreja.
Ela entrega-lhe um livro que contém palavras de salvação e o chama à penitência pelos pecados cometidos.
Esta figura da Igreja como mulher (velha mas renovada) é um dos símbolos mais antigos da eclesiologia cristã.

🔹 Segunda Visão — A Igreja reconstruída

Hermas vê a Igreja a ser reconstruída como uma torre feita de pedras vivas — as almas dos fiéis.
Cada pedra é examinada: as puras são colocadas na construção, as impuras são rejeitadas, mas poderão ser lavadas e reintegradas.
É uma alegoria do arrependimento e da disciplina eclesial.

🔹 Terceira Visão — O Pastor e o Jejum

Surge o anjo do arrependimento, que ordena jejuns e obras de caridade.
O verdadeiro jejum, diz o anjo, é partilhar o pão com os pobres e perdoar os inimigos.

🔹 Quarta Visão — A Besta e a Tribulação

Hermas vê uma besta gigantesca, símbolo da perseguição e das tentações do mundo.
Quem tiver fé não será devorado, pois o Senhor protege os que confiam nele.

🔹 Quinta Visão — O Pastor

Aparece finalmente o anjo em forma de Pastor, o mensageiro que lhe revelará todos os mandamentos e parábolas seguintes.
Ele representa o Espírito Santo ou o anjo da penitência.


Os Mandamentos (Mandata)

Os doze mandamentos que o Pastor comunica a Hermas são instruções morais detalhadas.
Não são simples repetições do Decálogo bíblico, mas virtudes cristãs desenvolvidas a partir dele.

Alguns exemplos:

  1. Crê em Deus e no seu Filho — fundamento da salvação.

  2. Vive na simplicidade e na inocência — o cristão deve ser puro de intenção.

  3. Ama a verdade e evita a calúnia.

  4. Evita o adultério e o desejo impuro.

  5. Sê paciente e manso, mesmo diante da injustiça.

  6. Distingue o verdadeiro profeta do falso.

  7. Confia no arrependimento — há perdão até uma vez após o baptismo, se for sincero.

  8. Evita a tristeza destrutiva, que vem do demónio.

  9. Guarda a fé mesmo na perseguição.

O tom é moral, pastoral e profundamente humano.
A ênfase no arrependimento distingue este texto de outros escritos rigoristas da época.


As Parábolas (Similitudines)

As dez parábolas ou alegorias reforçam o ensino moral por meio de imagens.
As mais conhecidas são:

🔸 Parábola da Videira e do Servo

O servo é o cristão; a videira, o Senhor.
Se o servo cuidar bem da vinha, receberá o fruto; se for negligente, a vinha secará.
É uma exortação à vigilância e fidelidade.

🔸 Parábola das Pedras e da Torre

Repete o tema da Igreja como torre.
Cada cristão é uma pedra viva, e as pedras rachadas simbolizam os que perderam a fé mas podem ser restaurados.
É uma das mais belas imagens da misericórdia eclesial.

🔸 Parábola da Oliveira Selvagem

A oliveira brava (os pecadores) pode ser enxertada na oliveira boa (a Igreja) — símbolo da graça que transforma.
A regeneração é sempre possível mediante arrependimento.


Temas teológicos principais

a) O Arrependimento (Metanoia)

É o tema central.
O Pastor de Hermas ensina que, mesmo após o baptismo, é possível o perdão se o arrependimento for sincero — uma visão pastoral e misericordiosa.
Este ponto foi controverso: muitos cristãos do século II (como os montanistas) negavam perdão a quem pecasse após o baptismo.

b) A Igreja e a Salvação

A Igreja é vista como edifício vivo em construção.
Não é ainda perfeita — está a ser purificada.
Há uma profunda espiritualidade comunitária: ninguém se salva sozinho.

c) O Espírito Santo e o Pastor

O Pastor representa o Espírito que fala através da consciência, conduzindo à penitência e à santidade.

d) Idolatria e pureza do coração

Hermas condena a idolatria e a hipocrisia.
Mas aqui “idolatria” é entendida num sentido moral e espiritual: idolatria é qualquer apego que substitua Deus — dinheiro, vaidade, poder.
Não há crítica ao uso simbólico de imagens cristãs, que nem sequer existiam ainda como arte litúrgica.
O texto fala de pureza interior e não de culto visual.

“Aquele que confia nas riquezas é idólatra,
pois o seu coração está posto nas coisas que perecem.”

Esta distinção mantém plena continuidade com a doutrina posterior da Igreja:
as imagens são instrumentos de memória e fé, não objetos de adoração.


Transmissão e influência

O Pastor de Hermas circulou amplamente entre os séculos II e IV.
Era considerado “Escritura” por muitos cristãos, especialmente no Oriente.
Consta de manuscritos como:

  • Códice Sinaítico (séc. IV), logo após o Novo Testamento;

  • Citações em Irineu, Orígenes e Clemente de Alexandria.

Serviu de inspiração à Doutrina dos Dois Caminhos (Didaché) e aos Pais do Deserto, pela sua ênfase na penitência e na vigilância espiritual.


Razões da exclusão do cânone

A obra não foi incluída na Bíblia por motivos formais e teológicos:

  1. Autoria incerta — Hermas não era apóstolo;

  2. Conteúdo moral e visionário, sem ensino doutrinário novo;

  3. Carácter alegórico — mais parenético do que revelatório;

  4. Tardia — escrita após a morte dos apóstolos.

Contudo, era lida como obra de edificação, comparável aos Apólogos ou às Regras monásticas.


Conclusão crítica

O Pastor de Hermas é uma das mais altas expressões da mística moral cristã antiga.
O seu tom é doce, penitencial e profundamente esperançoso.
Não há dogmatismo, mas um chamamento constante à conversão interior.

“Não te entristeças com o teu pecado, mas arrepende-te,
e o Senhor habitará de novo em ti.”

Espiritualmente, é uma síntese de Evangelho e sabedoria monástica:
o perdão é possível, a Igreja é viva, o Espírito fala no silêncio da consciência.

A sua linguagem simbólica aproxima-se de Henoc e Apocalipse, mas o seu coração é pastoral e humano — o primeiro grande “manual da misericórdia” da literatura cristã.

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