"Tarada da moita"
Imagine-se a abrir uma conversa no WhatsApp e das profundezas da internet, aquele pântano digital onde a sanidade é um mito e o bom senso é tão raro quanto uma ideia original num reality show. De repente, depara-se com um vídeo que parece saído diretamente do pesadelo de um realizador de filmes de terror de quinta categoria. No epicentro deste horror está ela, a protagonista da nossa tragédia moderna, num quarto que poderia muito bem ser cenário de um filme de apocalipse zumbi. As paredes estão descascadas, a cama desfeita parece um ninho de ratos, e objetos espalhados pelo chão sugerem um tornado recente. No entanto, o verdadeiro cataclismo é ela mesma: uma mulher com cabelo desgrenhado, parece ter sido penteado por um furacão de mau gosto.
Ela movimenta-se com a determinação de uma maratonista, mas em vez de correr, está engajada numa atividade que faria qualquer um questionar o futuro da humanidade. Com uma variedade de objetos que fariam uma loja de artigos baratos corar de vergonha, entrega-se a uma sessão de autoexploração que mais parece um ritual de exorcismo realizado por alguém que tirou um curso por correspondência. Cada gesto é uma afronta à decência e ao bom gosto.
Os olhos dela, em transe, rolam para trás como se tentassem escapar da visão dantesca do próprio corpo. A respiração ofegante e os gemidos ecoam pelo quarto, desprovidos de qualquer ritmo ou harmonia, a ponto de fazerem um metrónomo entrar em greve. É como se Salvador Dalí tivesse decidido realizar um vídeo de autoexploração, mas sem a arte – só o puro grotesco. A cena é uma obra-prima de horror doméstico. Cada segundo é uma descida a uma dimensão onde a dignidade e o autocuidado tiraram férias permanentes. O clímax, se é que podemos chamar-lhe assim, é uma mistura de possessão demoníaca com uma performance que faria até os dadaístas questionarem a sua arte.
E quando o espetáculo finalmente chega ao fim, a pergunta que martela a mente é: o que se passa na cabeça de alguém que acha que enviar um vídeo destes é uma boa ideia? Talvez seja uma mistura de carência afetiva, criatividade distorcida e uma pitada generosa de “vamos ver até onde vai”. É uma combinação explosiva, como um cocktail molotov emocional lançado contra qualquer resquício de bom senso. Mas o verdadeiro horror é a vergonha que ela traz para as mulheres. Num só vídeo, consegue destruir qualquer noção de respeito próprio e dignidade feminina. Esta mulher transforma o que deveria ser uma expressão de intimidade em um espetáculo grotesco, torna-se um exemplo ambulante dos perigos de misturar tédio, acesso irrestrito a câmaras e uma mente perturbada.
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