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"Um Brancura Luminosa — Entre o visível e o invisível"

“Uma Brancura Luminosa” é uma obra singular, breve mas densamente evocativa, escrita pelo autor norueguês Jon Fosse , laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 2023 , e publicada em português pela Cavalo de Ferro em 2024. Jon Fosse, nascido em 1959 em Strandebarm, na Noruega, é um dos mais importantes escritores contemporâneos. Ampla e reconhecida internacionalmente, a sua obra atravessa géneros — do romance ao teatro, da poesia ao ensaio — e caracteriza-se pela capacidade de dar voz ao indizível , explorando a existência, o tempo e as tensões interiores do ser humano. Este pequeno romance narra a viagem de um homem que conduz sem destino e, ao perder‑se numa floresta sob um céu de neve e escuridão, quase sucumbe ao frio e ao cansaço. Confrontado com a imensidão silenciosa da natureza e as suas próprias memórias, o protagonista é levado a atravessar uma experiência quase liminar até que, de repente, surge uma luz branca e luminosa no meio da noite gelada, abrindo espaço para uma ...

"Continuidade"

 Sabes, na vida existem verdades que não admitem esquecimento. Não por moralismo, não por nostalgia, mas porque esquecê-las equivale a uma lenta forma de morte interior. Há memórias que não são opcionais, são estruturais. Esquecer a família, as pessoas que nos amam verdadeiramente e, sobretudo, esquecer Deus, não é apenas perder referências — é perder a própria identidade. Quando essas presenças sagradas se diluem na pressa dos dias, o ser humano começa a afastar-se de si mesmo, a viver por fora, desconectado do centro que o sustém. Lembrar não é um acto passivo. Lembrar é um verbo activo, exigente, profundamente humano. Lembrar é amar outra vez. É escolher, conscientemente, manter viva a gratidão por quem nos antecedeu, o compromisso com quem caminha connosco e a fé que nos ultrapassa. A memória, quando é fiel, não se limita a arquivar o passado: ela dá-lhe continuidade, sentido e responsabilidade. A família — seja ela de sangue, de escolha ou de circunstância — é o primeiro lug...

"Inverno"

 Há histórias que não se apresentam como narrativa, mas como acontecimento interior. Não pedem apenas leitura; exigem disponibilidade. Aproximamo-nos delas com a leveza de quem julga controlar o tempo, e saímos transformados, mais lentos, mais atentos, quase vulneráveis. São histórias que suspendem o ruído do mundo e nos colocam diante de uma pergunta essencial: o que resta do humano quando tudo o resto falha? Vivemos numa época em que o sofrimento extremo é frequentemente classificado com palavras técnicas, higiénicas, neutras. Chamamos “natural” ao que resulta de estruturas sociais falhadas, de indiferenças acumuladas, de invisibilidades consentidas. A pobreza envelhecida, o abandono silencioso, a solidão dos últimos anos de vida tornaram-se realidades tão repetidas que perderam a capacidade de escandalizar. E é neste cenário que o inverno deixa de ser apenas uma estação para se tornar metáfora de uma condição humana: a do frio que não vem apenas de fora, mas que se infiltra na ...

"Inexaurível"

 Há naturezas humanas que não se deixam apreender à primeira leitura. Exigem tempo, atenção, silêncio. São como manuscritos antigos: densos, anotados nas margens pela vida, resistentes à pressa e à leitura distraída. Esta é uma dessas naturezas. À superfície, apresenta-se uma figura contida, de presença firme e olhar penetrante, como quem observa o mundo não para nele se perder, mas para o compreender. Há uma economia deliberada no gesto e na palavra, uma contenção que não nasce da frieza, mas de uma consciência profunda do peso que cada expressão pode ter. Nada é gratuito. Nada é inocente. Tudo é sentido antes de ser mostrado. No seu interior, porém, pulsa um universo emocional vastíssimo, quase oceânico, onde a sensibilidade não é fragilidade, mas sistema de orientação. Sente-se muito, sente-se fundo, sente-se para além do que é dito. A emoção não surge em vagas desordenadas; infiltra-se lentamente, instala-se, transforma. Cada experiência deixa marcas subtis, camadas sucessiva...

"Mistério"

Na quarta-feira terminámos mais um módulo. A Escola da Fé continua a confirmar aquilo que o coração já intuía: faz todo o sentido. Não porque ofereça respostas fáceis, mas porque nos convida a permanecer nas perguntas certas. Meditámos sobre temas verdadeiramente necessários, aqueles que não servem apenas para acumular conhecimento, mas para nos transformar o olhar e a forma de estar no mundo. Para além do aprofundamento histórico da Bíblia — essencial para compreender o contexto, a linguagem e o tempo —, este módulo conduziu-nos a algo mais delicado e exigente: o Mistério. Não como um enigma a decifrar apressadamente, mas como uma realidade a contemplar, respeitar e habitar. O Mistério não se resolve; acolhe-se. E isso, paradoxalmente, ensina mais do que muitas explicações. Poderia escrever aqui uma descrição detalhada de tudo o que aprendi, organizar conceitos, citar passagens, alinhar ideias. Mas não o farei. Não por falta de conteúdo — ele é vasto e profundo —, mas por convicção ...

"Sempre"

 Meu filho, Há uma coisa muito importante que quero que guardes no teu coração, como quem guarda um tesouro. Na vida, vais encontrar muitas emoções diferentes: às vezes vais sentir raiva, outras vezes tristeza, talvez inveja, culpa ou confusão. Isso acontece a todos. Mas quero que saibas uma coisa essencial: o único mal que deves aprender a vencer dentro de ti é o medo. O medo é como uma sombra. Quando ele aparece, faz tudo parecer maior, mais escuro e mais difícil do que realmente é. Muitas vezes, quando uma pessoa está zangada, invejosa ou muito triste, no fundo está apenas com medo. Medo de não ser amada, medo de errar, medo de ficar sozinha, medo de não ser suficiente. O medo fala baixo, mas empurra-nos para atitudes que não são boas nem para nós nem para os outros. Se aprenderes a dominar o medo, nada de mau terá poder sobre o teu coração. Não quer dizer que nunca vais sentir medo — sentir medo é humano —, mas vais aprender a não deixar que ele mande em ti. Vais aprender a ...

"Gratidão(08/01/2025)"

O dia 8 de janeiro é, para mim, um dia especial. Não por grandes acontecimentos exteriores, nem por datas solenemente assinaladas no calendário, mas porque me lembra — com a delicadeza dos dias simples — aquilo que verdadeiramente sustenta a vida. Ontem não consegui escrever neste espaço, e os motivos são válidos, quase pedagógicos na sua evidência: a vida aconteceu, inteira, exigente e bela. Foi um dia intenso, de trabalho apertado, de horários a encaixar como peças que teimam em não obedecer à lógica. Entre compromissos, responsabilidades e cansaço acumulado, procurei ainda um espaço essencial: estar com o meu filho mais novo. Não como tarefa, mas como escolha. E foi ele, curiosamente, quem decidiu ajudar-me. Não porque eu pedi — isso importa dizê-lo —, mas porque quis. Há gestos que não se ensinam; revelam-se. E quando surgem assim, espontâneos, têm uma força silenciosa que emociona mais do que qualquer discurso. Recordo com ternura um momento aparentemente banal: um senhor, ao ob...