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"Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo."

 A Mesa que nivela, o Corpo que transforma, o Amor que permanece Hoje é feriado — mas não é um simples dia de pausa. É um dia que suspende o tempo e nos convida a parar de verdade, não apenas o corpo, mas a alma. Celebramos a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, ou como ecoa nos corações marcados pela fé: Corpus Christi. Um dia que não é apenas para lembrar, mas para presenciar — porque nesta festa não evocamos apenas um gesto simbólico de Jesus, mas celebramos o mistério da Sua presença real, viva, total. Fui à missa. E, como acontece tantas vezes, saí de lá com algo que não tinha quando entrei. Para além da comunhão sagrada, levei comigo as palavras do senhor padre — proferidas com serenidade, clareza e aquele dom raro de tornar o divino compreensível sem o banalizar. A homilia foi teológica, poética e, a espaços, até levemente humorada — como só sabem fazer os que conhecem a alma humana. Começou com uma pergunta simples e profundamente incisiva: "Quem é que se sen...

"Eu, mãe, é que sei exatamente o que escrever."

 Foi hoje, durante o intervalo. Estava encostada à rede, como tantas vezes, à espera de o ver, de o ouvir, de partilhar um momento daqueles só nossos, que só as mães conhecem. Entre o tilintar do recreio e os risos soltos dos colegas, ele aproximou-se de mim, com aquele ar meio distraído, meio cúmplice. "Mãe, tenho uma coisa para te entregar." Não sei porquê, mas aquela frase parou-me. Talvez fosse o tom. Talvez fosse o momento — tão banal, e ao mesmo tempo tão cheio de significado. "Umas coisas que a professora me deu na sexta-feira," disse ele, com a maior das naturalidades, como quem entrega um bilhete qualquer. Sorri. Ri, até. Há quanto tempo ele não fazia uma destas? Tão ele, tão próprio destas fases em que já não são pequenos, mas ainda não são crescidos. São as coisas de ser finalista. Mais tarde, quando o fui buscar para o almoço, a conversa voltou. Perguntei o que era aquilo afinal. Foi então que, com aquele jeito muito dele, meio teatral, meio sincero, me ...

"Às Almas que Sentem (Ou Que Fingem Bem)."

Crónica para os que ainda escutam com a alma Nunca imaginei — e digo isto com uma sinceridade que já não tem energia para maquilhar nada — que textos escritos entre uma crise de ansiedade e a lista de compras do supermercado, entre uma lágrima no caminho e o silêncio depois de desligar o telemóvel, pudessem chegar a alguém. Mas chegaram. Tocaram. Habitaram. E, segundo consta, até curaram. Não sou curandeira. Não sou terapeuta. Mal sei ser gente às vezes. Mas, aparentemente, basta ser honesta com a dor, e já se está a fazer mais do que metade do mundo. A ironia suprema disto tudo é que nunca escrevi para “chegar” a alguém. Escrevi para não morrer engasgada. Para não me afogar nas palavras que o corpo não conseguia chorar. Escrevi para não enlouquecer no meio da normalidade fingida. E foi nesse acto desesperado, quase primitivo, de escrever com a alma em carne viva, que encontrei eco. Gente que, sem me conhecer de lado nenhum, disse: “sou eu que estás a escrever.” Como se eu tivesse inva...

"Voltar a mim: a liberdade de curar em silêncio."

Houve uma altura em que me senti doente. Não era febre. Não era um vírus. Não era algo que um médico pudesse diagnosticar em cinco minutos de consulta. Era outra coisa — uma exaustão interna, um silêncio pesado, uma dor difusa que morava no corpo mas nascia na alma. Por vezes, sentia-me doente… e sabia, lá no fundo, que não era o remédio que faltava. Nem era o remédio que podia curar. O que eu realmente precisava — e não encontrava — era alívio. O alívio de não ter de me justificar constantemente. O alívio de poder existir sem ter de explicar cada gesto, cada escolha, cada silêncio. O alívio de não precisar de me defender. O alívio de um abraço que acolhe sem perguntar, de uma palavra que não julga, de um espaço onde eu pudesse ser quem sou — sem medo. Porque sim, o corpo adoece quando a alma está saturada. O corpo fala, quando silenciamos o que mais importa. Adoece-se de carregar peso demais, silêncio demais, medo demais. Adoece-se por dentro, lentamente, até que um dia já não se reco...

"A Frontalidade, a Verdade e o Desastre da Língua Solta: Uma Reflexão sobre o Ofício de Saber Calar (e Saber Dizer)."

Vivemos numa era estranhamente ruidosa. Tudo se diz, tudo se comenta, tudo se partilha, por vezes com tanto entusiasmo que se poderia jurar que o bom senso foi voluntariamente excluído do grupo. A frontalidade é agora proclamada como virtude absoluta, uma espécie de superpoder reservado aos “genuínos”, como se a autenticidade fosse sinónimo de brutalidade verbal — e a empatia, uma fraqueza patológica. Ora, convém começarmos por desfazer equívocos. A frontalidade é uma qualidade, sim, mas apenas quando temperada com inteligência. Caso contrário, é só má criação com um marketing moderno. Autenticidade tornou-se a palavra da moda — um chavão que as pessoas gostam de usar quando querem justificar comportamentos que, em qualquer outro século, seriam classificados como egocentrismo com laivos de drama. “Sou só eu a ser autêntica” diz-se, enquanto se atropela o outro com opiniões não solicitadas, julgamentos envoltos em “preocupação” e uma certa necessidade messiânica de “dizer as coisas como...

"O Amor como Insubmissão Radical."

Vivemos num tempo em que o amor foi convertido em slogan, domesticado pelo discurso mercantil da auto-ajuda, estetizado nas vitrines digitais como um estado de bem-estar permanente, sem atrito, sem fendas. Um simulacro confortável, higienizado de risco e de transcendência. Porém, o amor — o amor autêntico, irredutível, desobediente — não se deixa encapsular por narrativas utilitárias ou algoritmos sentimentais. Ele escapa. Ele excede. Ele irrompe. O amor é, antes de tudo, uma experiência ontológica. Não um simples estado afectivo, mas uma transfiguração do ser — como sugeria Martin Heidegger ao falar da abertura ao "ser-no-mundo" como uma entrega radical à presença. Amar verdadeiramente implica uma suspensão voluntária do ego como centro de gravidade, um descentramento que não é renúncia, mas expansão. Ao amar, não nos anulamos: abrimo-nos. Não nos dissolvemos: dilatamo-nos. Tal como em Emmanuel Levinas, que via no rosto do outro a origem da responsabilidade ética, o amor ver...

"O que é ser voluntário num movimento da Igreja?"

 Ser voluntário… ah, esta palavra que soa simples, mas que transporta o peso e a leveza do mundo. Ser voluntário é dizer “sim” sem garantias, é oferecer o tempo sem esperar recibo, é amar sem exigir retorno. E quando esse voluntariado acontece no seio de um movimento da Igreja, estamos perante algo ainda maior: um chamamento espiritual, uma missão da alma. Ser voluntário é olhar com olhos que verdadeiramente vêem — e não apenas observam. Porque ver o outro não é notar a roupa que enverga ou o tom da sua voz. É discernir a alma que grita por dentro, mesmo quando o rosto esboça um sorriso por fora. Ser voluntário é escutar com ouvidos que acolhem — não apenas captam som. É captar o que não foi dito, o que se esconde nas entrelinhas do silêncio, no intervalo entre uma lágrima contida e um “está tudo bem” mal disfarçado. É necessária coragem. Mas não a coragem ruidosa dos heróis de ficção — é a coragem serena de quem enfrenta a indiferença com afecto, a pressa com paciência, a superfic...