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"Genuína"

 Vivemos num tempo que se proclama aberto à diferença, mas que, na prática, revela uma inquietante dificuldade em lidar com a autenticidade genuína. A diversidade tornou-se, em muitos contextos, um conceito decorativo — aceite enquanto ideia, mas frequentemente rejeitado quando se manifesta de forma real, concreta e incómoda. Há uma pressão subtil, quase invisível, para que todos se ajustem a um modelo de funcionamento social que privilegia o ruído, a exposição constante e a validação externa. E este condicionamento começa cedo. Demasiado cedo. Na infância, onde deveria existir espaço para a descoberta e para a expressão natural do ser, instala-se, muitas vezes, uma lógica de correção. A criança que não se adapta ao padrão dominante — que não gosta de barulho, que evita multidões, que observa mais do que intervém, que revela uma inteligência silenciosa e introspectiva — é rapidamente interpretada como um problema a resolver. Rotula-se. Classifica-se. Nomeia-se. Porque é mais fá...

"Não tenho medo"

 Hoje volto a partilhar este texto, escrito no início de 2024. Tal como já referi, decidi recuperar e republicar aquilo que, por um período, optei por retirar. Faço-o por uma razão simples: porque quero, porque posso, porque me apetece. Não há intimidação que me mova nem ameaça que me silencie. Não tenho receio da verdade — sobretudo da minha. ______________________________________________ Há um certo desespero — quase revelador — em tentar incutir culpa em quem já não vive para a validação alheia. É um esforço estéril, uma tentativa de manipulação que falha à partida, porque só se sente culpado quem reconhece legitimidade em quem acusa. E eu deixei de reconhecer essa legitimidade há muito tempo. A verdade, tantas vezes invocada como bandeira, não é um instrumento de conveniência. Não se molda à narrativa que mais convém. Existe, sim, num espaço intermédio entre versões — mas não valida a mentira, nem legitima a distorção. Eu vivi a minha história. E aquilo que afirmo não nasce...

"Castigo"

 O pior castigo não se veste de tribunal, não se anuncia com sentenças, nem se cumpre perante olhares alheios. O pior castigo mora dentro de nós. É a consciência — silenciosa, inflexível, implacável. Ela não perdoa, não cansa, não admite distrações. A memória, fiel guardiã, retorna sempre. Ora de forma discreta, sussurrando entre os gestos do quotidiano, ora como um murro que nos deixa sem fôlego, golpeando o estômago e arrepiando a espinha. O mundo insiste em ensinar-nos a temer o externo: a vergonha, o julgamento, a humilhação, a perda de prestígio ou afeto. Mas esse temor pesa menos do que o inferno que carregamos dentro: aquele que nos aprisiona, onde conhecemos a verdade de nós mesmos, onde sentimos o peso do que poderíamos ter sido, mas falhámos. Onde percebemos, crua e silenciosamente, que desperdiçámos o que não volta, que escolhemos mal quando não podíamos errar, que ferimos quando devíamos ter cuidado. Sei. Sei os caminhos errados que tomei, as palavras que deixei de di...

"O Despertar Invisível"

Sentes-me antes mesmo de me leres. Palavras que deslizam silenciosas, lentas, insistentes, Percorrendo cada recanto da tua mente, Tocando lugares que julgavas adormecidos. Cada sílaba é um dedo que não vês, Cada estrofe, lábios invisíveis que percorrem a espinha, Provocando arrepios antes de perceberes. A poesia não se lê — entrega-se. Não se contempla — respira-se, arrepia-se, dissolve-se. Cada palavra é pele, cada rima é língua, Cada pausa, promessa de toque que nunca viste. O ritmo pulsa como coração ofegante, A cadência das frases imita a tua respiração, Suspensão, tensão, antecipação… O corpo mental reage primeiro, mas o físico segue, inevitável. Sentes o calor subir lentamente, O sangue aquece, a mente imagina, o corpo responde, Cada metáfora é toque, cada linha é lábio, Cada estrofe é onda que sobe e desce, que arrasta. Fecho os olhos e sinto-te percorrer-me, Cada pensamento transforma-se em carícia, Cada memória desperta desejo, Cada arrepio cresce, persist...

"Aprendi..."

 Uma vez li uma frase que nunca esqueci: nem sempre precisamos de contar o nosso lado da história; o tempo conta. E, de facto, o tempo possui esse dom silencioso e inevitável: revelar cada detalhe, cada ferida, cada conquista… no seu próprio ritmo, com a paciência de quem sabe esperar pela perfeição do instante. Aprendi que a verdade não se impõe nem se apressa. Ela não se faz ouvir com gritos nem se defende com urgência. Surge, subtil, paciente, como uma flor que desabrocha sem pressa, como uma luz que rompe a escuridão apenas quando chega o seu momento. Nem toda a verdade precisa de ser proclamada; algumas fortalecem-se no silêncio, amadurecem no peito, florescem nos gestos e nos olhares, muito além das palavras que tentamos usar para a conter. A minha mãe dizia sempre que o tempo é o jardineiro mais paciente que existe. Não apressa as sementes, não força a floração. Observa, cuida, rega com constância e deixa que a vida se manifeste no instante certo. Aprendi, com a sabedoria ...

"Enfim, Porque Me Apetece — Um Regresso Estratégico"

  Enfim posso recolocar os textos retirados deste meu espaço — e faço-o apenas porque me apetece. Sim, só porque me apetece. Sem ordens, sem pressões, sem necessidade de explicar-me: o blog é meu e a liberdade também . Há quem diga que paciência é uma virtude; eu digo que autonomia é um luxo, e este é o meu momento para exercê-lo com toda a irreverência que me apetece. Começo com este. Porquê? Porque me apetece, naturalmente. Porque não existe cronómetro que me obrigue a justificar timing, prioridade ou relevância emocional. Porque o prazer de decidir, de escrever e de partilhar é todo meu, e posso saboreá-lo sem culpa, ironia ou remorso alheio. E, já que estamos em terreno de vontades, coloco um perfil — só porque quero. Sem necessidade de pedir licença, sem procurar aprovação, sem vestígios de ego inflado. É um gesto deliberado de liberdade: escrevo, partilho e decido pelo simples prazer de poder fazê-lo , e isso basta. É engraçado como, por vezes, a ironia da vida se resume ...

"Simples assim ..."

 Tu dizes que eu sou além das palavras… e é nesse lugar — onde a linguagem falha — que eu existo. Sou mulher. Uma mulher que carrega dentro de si a força e a virtude de mil outras, e ainda mais do que isso — não como exagero poético, mas como essência que se manifesta em cada gesto, em cada presença, em cada silêncio que também fala. Sou uma tapeçaria viva. Em mim entrelaçam-se a inocência de menina e um cuidado que não conhece limites. Sou delicadeza e vigilância, leveza e profundidade, numa harmonia que não se explica — sente-se. Encarnam em mim sentimentos que não se medem. Uma ternura vasta, capaz de tocar até os corações mais partidos. Um amor tão profundo que não apenas existe — transforma, eleva, recria o mundo por onde passo. Não uso apenas perfume — eu respiro presença. E nessa presença, algo floresce. Como rosas na primavera, há em mim um desabrochar sereno que não pede atenção, mas inevitavelmente a atrai. Sou calma no meio do caos. Sou refúgio — não como abrigo passagei...

"Força"

 Há forças que não nasceram de uma escolha minha, mas de uma convocação inevitável da vida — como se, em silêncio, o destino me tivesse chamado para um lugar onde apenas permanecem aquelas que recusam desaparecer. A minha força não foi semeada em tempos de leveza, nem cultivada em dias de descanso. Foi erguida, pedra sobre pedra, nos escombros das perdas, no eco das desilusões e na vastidão de silêncios que, tantas vezes, pareceram maiores do que eu. Sou mulher. E ser mulher, na minha história, nunca foi sinónimo de fragilidade — foi sinónimo de reconstrução contínua. Sou mãe. E na maternidade encontrei não apenas amor, mas uma forma quase sagrada de resistência, uma coragem que não admite recuo, uma capacidade de continuar mesmo quando tudo em mim já estava exausto. Sou protetora. E proteger tornou-se instinto, missão e identidade — mesmo quando, para isso, tive de me esquecer de mim por instantes, para garantir que quem depende de mim nunca sentisse o peso total das tempestades ...

"Abraça-me forte"

Abraça-me forte, como se o mundo tivesse apenas este instante, como se cada segundo carregasse o peso de todos os que ficaram por viver. Antes que o tempo nos escape entre os dedos, antes que as horas se dispersem, silenciosas, no vento que tudo leva. Abraça-me como porto seguro, como abrigo impenetrável em meio ao caos, que o teu corpo seja muralha e calor, que o teu abraço seja escudo contra as sombras que rondam, vorazes e silenciosas. Que este toque seja afirmação: que existimos, agora, sem pressa, sem medo, que cada batida do peito se reconhece na outra, como se a vida tivesse aprendido a concentrar-se apenas neste gesto. Antes que tudo se dilua em memória, antes que a existência se transforme em eco, que fique o calor do toque, que reste a intensidade do instante, que a saudade só venha depois, quando já tivermos gravado o momento na pele, na alma. Abraça-me forte, com tudo o que és — com a tua coragem, com o teu desejo, com a ternura e com a força que trazes no peito. Que o agor...

"Grito"

Não me venham com a elegância ambígua do silêncio como se fosse linguagem suficiente. O silêncio, tantas vezes, não é profundidade — é fuga com aparência de mistério. Pergunto: que valor tem o que não se diz, se no não-dito cabe tudo — inclusive a ausência de coragem? Eu não habito esse território. Prefiro a palavra exposta, sem ornamentos que a suavizem, sem rodeios que a diluam. A palavra que chega como é — imperfeita, por vezes dura, mas inteira naquilo que carrega. Há quem se proteja no intervalo, nesse espaço cómodo entre o quase e o nunca, onde nada se afirma e tudo se pode negar depois. Que fiquem. Eu escolho o risco da clareza. Sou de olhar firme, de presença que não se esquiva, de uma sinceridade que não pede desculpa por existir. Porque aprendi — não sem custo — que há feridas limpas que curam e há silêncios prolongados que apodrecem. Chamam-lhe excesso, como se dizer fosse sempre demais num mundo habituado a insinuar. Mas o que é claro não agride — revela. E o que revela lib...