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"Eu não publico para ser medida"

Hoje, quando cheguei à porta de casa, encontrei uma pessoa que me disse, com a maior naturalidade: — Tens muitas interações nas tuas publicações. Se o teu perfil fosse público, imagina... Porque não mudas para criador de conteúdos digitais? Olhei para ela e, sinceramente, a primeira coisa que me ocorreu foi: Porque raio haveria eu de fazer isso? Não é uma pergunta retórica. É mesmo uma pergunta. Porque existe qualquer coisa na forma como hoje olhamos para as redes sociais que me deixa, por vezes, genuinamente perplexa. Parece que tudo tem de ser transformado em métrica. Visualizações. Gostos. Partilhas. Seguidores. Alcance. Interações. Crescimento. Engagement. Como se uma coisa só adquirisse valor quando pudesse ser contabilizada. Eu não sou influencer. Não quero ser. Não tenho qualquer desejo de transformar aquilo que escrevo, aquilo que penso ou aquilo que partilho numa espécie de produto sujeito à avaliação permanente de um algoritmo. Eu escrevo porque gosto de escrever. Partilho po...

"O primeiro dia de uma vida que começa a sair da minha asa"

Nem consigo acreditar que o meu menino tem seis anos. Seis. Hoje foi a apresentação para ingressar no 1.º ciclo e, enquanto toda a gente parece olhar para este momento como uma passagem natural — mais uma etapa, mais uma reunião, mais uma criança a entrar na escola — eu senti qualquer coisa a apertar-me por dentro. Há momentos que parecem pequenos para quem os observa de fora e enormes para quem os vive por dentro. Hoje foi um desses dias. Porque não era apenas uma apresentação. Era o início de uma separação. Pequena, é certo. Mas real. Até aqui, a escola ainda me parecia um território onde ele era suficientemente pequeno para que eu conseguisse imaginar que o protegia de tudo. Agora começa o 1.º ciclo. Começa outra exigência, outra autonomia, outra relação com adultos que não sou eu, outras crianças, outras regras, outros olhares. E eu sei que é assim que deve ser. Sei racionalmente. Mas o coração nem sempre acompanha a velocidade da razão. E, como se o primeiro dia não trouxesse já e...

"A mulher que existia antes de ser minha mãe"

Quem seria a mulher que eu não conheci? Não a minha mãe. A mulher. Aquela que existia antes de eu existir. Antes de o meu nome fazer parte dos seus dias. Antes de o seu corpo conhecer a espera, o medo, a esperança e aquela estranha transformação através da qual uma mulher passa a carregar dentro de si alguém que ainda não viu, não ouviu e não conhece. Quem eras tu antes de seres minha mãe? Esta pergunta acompanha-me com uma espécie de ternura dolorosa. Porque eu conheci-te através da maternidade. Conheci os teus gestos de mãe, as tuas palavras de mãe, as tuas preocupações de mãe, as tuas alegrias de mãe, os teus medos de mãe. Mas existe uma mulher anterior a tudo isso. E essa mulher escapa-me. Talvez tenha tido sonhos que nunca conheci. Talvez tivesse projectos que ficaram pelo caminho. Talvez houvesse lugares onde quiseste ir, coisas que quiseste aprender, pessoas que quiseste conhecer, versões de ti própria que imaginaste e que a vida nunca te permitiu experimentar. Talvez tivesses u...