"A mulher que existia antes de ser minha mãe"

Quem seria a mulher que eu não conheci?

Não a minha mãe.

A mulher.

Aquela que existia antes de eu existir. Antes de o meu nome fazer parte dos seus dias. Antes de o seu corpo conhecer a espera, o medo, a esperança e aquela estranha transformação através da qual uma mulher passa a carregar dentro de si alguém que ainda não viu, não ouviu e não conhece.

Quem eras tu antes de seres minha mãe?

Esta pergunta acompanha-me com uma espécie de ternura dolorosa.

Porque eu conheci-te através da maternidade.

Conheci os teus gestos de mãe, as tuas palavras de mãe, as tuas preocupações de mãe, as tuas alegrias de mãe, os teus medos de mãe.

Mas existe uma mulher anterior a tudo isso.

E essa mulher escapa-me.

Talvez tenha tido sonhos que nunca conheci.

Talvez tivesse projectos que ficaram pelo caminho.

Talvez houvesse lugares onde quiseste ir, coisas que quiseste aprender, pessoas que quiseste conhecer, versões de ti própria que imaginaste e que a vida nunca te permitiu experimentar.

Talvez tivesses uma ideia muito diferente da felicidade antes de descobrires que a felicidade também podia ter o rosto de um filho.

E eu fico a pensar nisso.

Que mulher eras tu quando ninguém ainda te chamava mãe?

Que música gostavas de ouvir?

O que te fazia rir até perderes o fôlego?

O que te assustava?

Que desejos guardavas em silêncio?

Que injustiças te doíam?

Que sonhos sopraste quando apagaste as velas do teu aniversário?

E o que pediste à vida nesses instantes em que fechamos os olhos, respiramos fundo e acreditamos, ainda que por breves segundos, que talvez o mundo possa conceder-nos alguma coisa?

Talvez tenhas pedido amor.

Talvez saúde.

Talvez uma vida tranquila.

Talvez felicidade para as pessoas que amavas.

Talvez tenhas pedido exactamente aquilo que qualquer ser humano pede, no fundo: tempo.

Mais tempo.

É estranho pensar que uma pessoa pode ter uma história inteira antes de nós e que, quando chegamos, uma parte dessa história passa a ser também nossa.

Nós não conhecemos o instante em que começámos.

Não nos lembramos do primeiro momento.

Não temos memória do primeiro medo, da primeira esperança, da primeira vez que alguém nos imaginou.

Mas uma mãe sabe que existimos antes de nós próprios sabermos.

E há qualquer coisa de profundamente misterioso nisso.

Antes de termos consciência de nós, alguém já tinha consciência da nossa chegada.

Antes de termos um rosto, alguém podia imaginar o nosso rosto.

Antes de termos voz, alguém podia falar connosco.

Antes de sabermos o que era amar, alguém podia já amar-nos.

Talvez seja uma das formas mais primitivas e mais profundas de amor: amar alguém antes de poder receber qualquer coisa dessa pessoa em troca.

E depois crescemos.

E, como quase todos os filhos, começamos a acreditar que conhecemos a nossa mãe.

Conhecemos aquilo que ela nos mostra.

Conhecemos aquilo que ela faz.

Conhecemos as histórias que nos contou.

Conhecemos algumas das suas dores e algumas das suas alegrias.

Mas ninguém conhece completamente outra pessoa.

Nem sequer uma mãe.

Há sempre um território interior que permanece inacessível.

Uma espécie de quarto fechado dentro de cada ser humano onde vivem pensamentos que nunca foram pronunciados, arrependimentos que nunca foram confessados, desejos que nunca encontraram ocasião, medos que ninguém percebeu.

Talvez a morte seja particularmente cruel precisamente por isso.

Porque quando alguém morre não perdemos apenas a pessoa.

Perdemos também a possibilidade de continuar a conhecê-la.

Ficam perguntas que já não podem ser feitas.

E talvez sejam essas perguntas que mais tarde doem.

O que sentiste naquele dia?

O que pensaste quando me viste pela primeira vez?

Tinhas medo?

Eras feliz?

Havia alguma coisa que nunca me disseste porque achaste que eu ainda não estava preparada para compreender?

Houve momentos em que choraste sozinha para não preocupar ninguém?

Houve sonhos teus que sacrificaste por nós?

E, sobretudo:

foste feliz?

Esta talvez seja uma das perguntas que mais gostaria de te poder fazer agora.

Não se foste uma boa mãe.

Não se fizeste tudo certo.

Não se estiveste à altura das expectativas.

Mas se foste feliz.

Porque hoje compreendo uma coisa que talvez só se compreenda verdadeiramente quando se cresce:

uma mãe não deixa de ser mulher quando se torna mãe.

Continua a ter desejos.

Continua a ter fragilidades.

Continua a precisar de colo.

Continua a ter medo.

Continua a querer ser amada por aquilo que é e não apenas por aquilo que faz pelos outros.

Continua a ter direito a uma vida que não seja exclusivamente definida pela utilidade que tem para alguém.

Talvez tenhamos sido demasiado rápidos a chamar "mãe" a uma mulher e demasiado lentos a perguntar quem era essa mulher.

E talvez isso seja uma das coisas que a idade nos ensina.

Os pais deixam de ser apenas os nossos pais.

Começamos finalmente a vê-los como pessoas.

Começamos a imaginar a infância que tiveram, os medos que carregaram, as limitações que enfrentaram, as escolhas que fizeram, as escolhas que não puderam fazer.

E, de repente, percebemos que eles também estavam a aprender.

Também estavam a tentar.

Também erraram sem possuir um manual para a vida.

Também tiveram dias em que não sabiam como continuar.

E talvez seja aí que o amor se torna mais adulto.

Quando deixamos de olhar para a mãe apenas como mãe e começamos a vê-la como mulher.

Uma mulher inteira.

Com contradições.

Com virtudes e defeitos.

Com sonhos e renúncias.

Com coragem e medo.

Com aquilo que conseguiu dar e aquilo que não conseguiu.

E isso não diminui uma mãe.

Humaniza-a.

Talvez seja precisamente essa humanidade que torna a ausência tão difícil.

Porque quando alguém morre, não perdemos uma personagem da nossa vida.

Perdemos uma pessoa irrepetível.

Uma pessoa que já não pode voltar a telefonar.

Que já não pode responder a uma pergunta.

Que já não pode contar uma história que ainda não conhecíamos.

Que já não pode dizer:

"Lembras-te daquele dia?"

E talvez a pior parte da ausência seja esta:

há acontecimentos futuros que nunca chegarão a ser partilhados com quem partiu.

Há coisas que acontecerão na nossa vida e que essa pessoa nunca saberá.

Haverá dias felizes em que nos apetecerá contar-lhe.

Haverá dias terríveis em que procuraremos instinctivamente a sua presença.

Haverá conquistas que terão um lugar vazio na fotografia.

Haverá aniversários.

Natal.

Doenças.

Mudanças.

Medos.

Vitórias.

E, em cada uma dessas ocasiões, haverá aquele pequeno pensamento involuntário:

"Gostava que estivesses aqui."

É assim que compreendo a permanência de quem morreu.

Não como uma presença que substitui a ausência.

Isso seria negar a própria morte.

Mas como uma presença que passa a habitar outro lugar.

A memória.

A identidade.

A linguagem.

Os gestos.

As escolhas.

Aquilo que fazemos quando ninguém está a observar.

Há coisas em mim que provavelmente começaram em ti e que eu nunca saberei identificar completamente.

Talvez uma maneira de olhar.

Uma expressão.

Uma reacção.

Uma forma de proteger quem amo.

Uma determinada sensibilidade.

Até algumas das minhas fragilidades podem ter uma genealogia que eu desconheço.

Somos feitos de uma quantidade extraordinária de coisas que não escolhemos.

Recebemos.

Transformamos.

Rejeitamos algumas.

Conservamos outras.

E seguimos.

É assim que uma pessoa continua depois da morte de outra.

Não permanecendo exactamente como era.

Mas carregando consigo aquilo que conseguiu transformar em vida.

Talvez seja esse o verdadeiro sentido de sobreviver a alguém que amamos.

Não ficar eternamente parada no momento da perda.

Mas aprender a levar connosco aquilo que a pessoa nos deixou sem ficarmos presos ao lugar onde ela nos deixou.

Porque a morte tem uma crueldade que não podemos negociar:

ela não pergunta se estamos preparados.

Não pergunta se terminámos de dizer tudo.

Não pergunta se já perdoámos.

Não pergunta se ainda precisávamos daquela pessoa.

Simplesmente acontece.

E depois somos nós que temos de aprender uma nova gramática da existência.

Uma gramática onde já não existe a presença, mas existe a memória.

Onde já não podemos perguntar, mas podemos recordar.

Onde já não podemos tocar, mas podemos reconhecer.

Onde já não podemos receber respostas, mas podemos continuar a fazer perguntas.

E talvez seja por isso que penso tantas vezes na mulher que existia antes de ser minha mãe.

Porque, enquanto penso nela, sinto que não estou apenas a procurar quem foste.

Estou também a tentar compreender quem sou.

Se tu exististe antes de mim, eu também existo depois de ti.

E esta continuidade tem qualquer coisa de vertiginoso.

Tu foste antes.

Eu sou depois.

Um dia também deixarei de estar.

E, entre esses dois acontecimentos, existe uma vida que me cabe viver.

É aqui que a tua ausência me coloca diante da pergunta mais difícil de todas.

Não:

"Porque partiste?"

Mas:

"O que faço da minha vida agora que partiste?"

O que faço com os dias que ficaram?

O que faço com tudo aquilo que ainda não vivi?

O que faço com as manhãs em que já não posso ouvir a tua voz?

O que faço com as coisas que ainda queria contar-te?

O que faço com os meus medos, agora que já não posso procurar-te da mesma maneira?

O que faço com a saudade?

Não sei.

Talvez ninguém saiba.

Talvez viver depois de uma perda seja precisamente aprender, pouco a pouco, a responder a perguntas para as quais não existe resposta perfeita.

Mas sei uma coisa:

não quero que a tua morte seja o lugar onde a minha vida termina emocionalmente.

Não quero transformar a saudade numa prisão.

Não quero passar o resto dos meus dias apenas a olhar para aquilo que perdi.

Quero olhar também para aquilo que ficou.

E alguma coisa ficou.

Eu fiquei.

A vida ficou.

As pessoas que amo ficaram.

Os dias que ainda não vivi ficaram.

Os lugares onde ainda não fui.

As coisas que ainda quero aprender.

As pessoas que ainda vou conhecer.

Os abraços que ainda vou dar.

As palavras que ainda vou escrever.

As vezes que ainda vou rir.

As vezes que ainda vou chorar.

Tudo isso ficou.

E talvez seja essa a minha responsabilidade perante a tua ausência:

viver.

Não esquecer-te.

Não fingir que não dói.

Não substituir-te.

Não transformar a saudade numa coisa bonita apenas porque é mais fácil suportá-la assim.

Mas viver.

Viver mesmo.

Com aquilo que me deste.

Com aquilo que não me pudeste dar.

Com as perguntas que ficaram sem resposta.

Com as memórias que ainda consigo guardar.

E com todas aquelas que, inevitavelmente, o tempo irá levar.

Talvez um dia a minha memória de ti já não seja tão nítida.

Talvez esqueça o som exacto da tua voz.

Talvez já não consiga reconstruir perfeitamente o teu rosto em determinados momentos.

E isso assusta-me.

Porque existe uma segunda morte que acontece lentamente:

aquela que começa quando as pessoas deixam de se lembrar.

Mas enquanto eu puder, lembrar-me-ei.

E, sobretudo, tentarei fazer alguma coisa com aquilo que me deixaste.

Não apenas recordar-te.

Continuar.

Talvez seja essa a forma mais bonita de honrar alguém que partiu.

Não ficar eternamente junto da sua sepultura, mas levar a sua existência para dentro da nossa própria vida.

Continuar a amar.

Continuar a aprender.

Continuar a construir.

Continuar a ser humana.

Continuar a errar e a tentar outra vez.

Continuar a olhar para o mundo com curiosidade.

Continuar a celebrar os aniversários, mesmo quando algumas cadeiras ficam vazias.

Continuar a soprar velas.

E talvez, em algum aniversário futuro, quando fechar os olhos antes de soprar, eu me pergunte novamente:

"O que terias pedido tu naquele dia?"

E talvez já não consiga saber.

Mas posso imaginar.

Talvez tenhas pedido felicidade.

Talvez tenhas pedido amor.

Talvez tenhas pedido saúde.

Talvez tenhas pedido que os teus filhos ficassem bem.

E, se assim foi, talvez a melhor resposta que eu possa dar ao teu desejo seja esta:

vou tentar ficar bem.

Não todos os dias.

Não sem medo.

Não sem saudade.

Mas vou tentar.

Porque agora compreendo que a tua história não terminou simplesmente no dia em que partiste.

Uma parte dela continua em mim.

E enquanto eu viver, aquilo que em ti chegou até mim terá ainda uma oportunidade de existir.

É por isso que, quando penso na mulher que existia antes de ser minha mãe, não quero apenas perguntar quem foste.

Quero agradecer àquela mulher que um dia existiu sem saber que iria ser a minha mãe.

Àquela mulher que teve sonhos que talvez nunca conhecerei.

Àquela mulher que teve uma vida antes de mim.

Àquela mulher que, sem saber, um dia me daria a minha.

E agora, diante da tua ausência, resta-me a pergunta que talvez seja a mais difícil e a mais bonita:

o que faço da minha vida agora que partiste?

Faço dela aquilo que ainda posso.

Vivo.

Por mim.

Por aquilo que me ensinaste.

Por aquilo que não chegámos a viver.

Pelas palavras que ficaram por dizer.

Pelos abraços que já não posso dar.

E por esse amor estranho, imperfeito e persistente que a morte não conseguiu levar.

Porque tu já não estás aqui.

Mas eu estou.

E talvez, por agora, seja essa a resposta que a vida me pede:

que eu continue.

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