"Eu não publico para ser medida"
Hoje, quando cheguei à porta de casa, encontrei uma pessoa que me disse, com a maior naturalidade:
— Tens muitas interações nas tuas publicações. Se o teu perfil fosse público, imagina... Porque não mudas para criador de conteúdos digitais?
Olhei para ela e, sinceramente, a primeira coisa que me ocorreu foi:
Porque raio haveria eu de fazer isso?
Não é uma pergunta retórica.
É mesmo uma pergunta.
Porque existe qualquer coisa na forma como hoje olhamos para as redes sociais que me deixa, por vezes, genuinamente perplexa.
Parece que tudo tem de ser transformado em métrica.
Visualizações.
Gostos.
Partilhas.
Seguidores.
Alcance.
Interações.
Crescimento.
Engagement.
Como se uma coisa só adquirisse valor quando pudesse ser contabilizada.
Eu não sou influencer.
Não quero ser.
Não tenho qualquer desejo de transformar aquilo que escrevo, aquilo que penso ou aquilo que partilho numa espécie de produto sujeito à avaliação permanente de um algoritmo.
Eu escrevo porque gosto de escrever.
Partilho porque quero partilhar.
E, sobretudo, porque ainda acredito que uma palavra pode chegar a alguém sem precisar de vir acompanhada de uma estratégia de marketing.
Claro que fico feliz quando vejo que amigos meus gostaram ou adoraram aquilo que publiquei.
Seria absurdo negar isso.
Quando escrevemos alguma coisa que nos pertence, existe sempre uma pequena parte de nós que fica contente quando alguém a recebe.
Mas isso é completamente diferente de viver para contabilizar a recepção.
Eu não fico a actualizar a página para saber quantas pessoas reagiram.
Não publico a pensar:
"Quantas pessoas vou conseguir alcançar?"
Penso antes:
"Tenho alguma coisa para dizer?"
E, se tenho, digo.
Se alguém gostar, fico contente.
Se alguém se identificar, melhor ainda.
Se alguém retirar alguma coisa dali que lhe faça sentido, então a palavra cumpriu uma das suas funções mais bonitas: encontrou outra pessoa.
Mas não preciso que uma estatística me diga que aquilo que escrevi teve valor.
Há coisas demasiado humanas para caberem num número.
Uma pessoa pode ler um texto e não carregar em botão nenhum.
Pode ficar em silêncio.
Pode pensar nele durante horas.
Pode voltar a lê-lo meses depois.
Pode reconhecer-se numa frase e nunca dizer-me.
Como é que se mede isso?
Não se mede.
E talvez essa seja precisamente a parte que a lógica das redes sociais não consegue compreender.
Nem tudo o que importa produz uma métrica.
Também penso muito naqueles perfis que observam tudo e não deixam absolutamente nenhum sinal.
Lêem.
Voltam a ler.
Acompanham.
Mas nunca colocam nada.
Eu confesso: não tenho esse ADN.
Se vejo, quero que a pessoa saiba que vi.
Se gostei, digo.
Se apreciei, assinalo.
Se alguém partilha alguma coisa comigo e eu aceitei estar ali, parece-me perfeitamente natural existir alguma forma de reciprocidade.
Não compreendo muito bem essa necessidade de estar permanentemente presente sem nunca assumir presença.
E digo isto com toda a franqueza, porque não vejo grande virtude em fingir que não penso aquilo que penso.
Não estou a dizer que toda a pessoa que não reage tem uma intenção escondida.
Claro que não.
Há pessoas distraídas.
Há pessoas que simplesmente não gostam de interagir.
Há quem leia rapidamente.
Há quem não tenha esse hábito.
Tudo bem.
Mas existe também uma diferença entre simplesmente não reagir e transformar a observação silenciosa numa espécie de comportamento sistemático.
E, nesse caso, pergunto-me:
o que estamos realmente a fazer?
Porque uma coisa é estar numa rede social.
Outra é transformar a vida dos outros num objecto de observação permanente.
Eu não quero viver assim.
Nem quero que vivam assim comigo.
Não estou em competição por causa de uma publicação.
Não preciso de ganhar a ninguém.
Não preciso de provar que escrevo melhor do que outra pessoa.
Não preciso de ter mais reacções.
Não preciso de ser mais vista.
Aliás, talvez seja precisamente por não estar a competir que consigo apreciar genuinamente quando alguém lê aquilo que escrevi.
A pessoa não me deve um gosto.
Não me deve um comentário.
Não me deve uma partilha.
Mas, quando o faz espontaneamente, eu valorizo.
Porque existe uma diferença entre uma audiência e uma comunidade.
Uma audiência observa.
Uma comunidade participa.
E eu continuo a preferir pessoas a números.
Talvez porque já vivi o outro lado da exposição.
E não foi bonito.
Houve uma altura em que confiar em determinadas pessoas se transformou numa experiência que, sinceramente, às vezes parecia saída de um filme de terror.
O meu número de telemóvel é privado por uma razão.
Não por secretismo.
Não porque tenha alguma coisa a esconder.
É privado porque já fui incomodada de uma forma que ultrapassou todos os limites razoáveis.
Mensagens.
Telefonemas.
Insistência.
Pessoas que acharam que tinham direito de entrar na minha vida porque, de alguma maneira, se sentiram autorizadas a fazê-lo.
O email também é privado.
E não é uma decisão estética.
É uma decisão de protecção.
Já recebi centenas de mensagens carregadas de impropérios, insultos e ofensas vindas, muitas vezes, de pessoas que provavelmente jamais teriam a mesma coragem se estivessem frente a frente.
É curioso o que acontece quando existe uma distância entre quem escreve e quem recebe.
Há pessoas que descobrem uma coragem extraordinária atrás de um teclado.
Uma coragem que desapareceria provavelmente no momento em que tivessem de olhar nos olhos da pessoa a quem dirigem determinadas palavras.
E é precisamente por isso que as minhas redes sociais também têm limites.
Não porque eu tenha medo de opiniões.
Muito pelo contrário.
Eu aceito opiniões.
Aceito críticas.
Aceito discordância.
Aliás, uma pessoa que só aceita aquilo que confirma o que pensa não está verdadeiramente interessada em pensamento.
Está interessada em confirmação.
O que eu não aceito é a transformação da opinião em licença para a agressão.
Não aceito ofensas disfarçadas de sinceridade.
Não aceito julgamentos sem fundamento apresentados como verdades.
Não aceito aquela espécie particularmente pobre de coragem que consiste em dizer tudo aquilo que se quer quando se acredita que não haverá consequências.
E existe ainda uma coisa que aprendi:
ter acesso à vida de alguém não significa ter direito sobre essa vida.
Uma pessoa pode partilhar alguma coisa publicamente e continuar a ter limites.
Pode escrever sobre si e continuar a ter privacidade.
Pode mostrar uma parte da sua vida sem entregar a totalidade dela.
Parece-me estranho que ainda seja necessário explicar isto.
Publicar não significa disponibilizar.
Partilhar não significa autorizar invasão.
Estar numa rede social não significa abdicar da dignidade.
E escrever não significa aceitar que qualquer pessoa possa transformar aquilo que escrevemos numa autorização para nos atacar.
Há quem confunda abertura com disponibilidade absoluta.
Eu não.
Posso abrir uma janela sem entregar a chave da minha casa.
Posso partilhar uma ideia sem disponibilizar a minha intimidade.
Posso escrever sobre aquilo que vivi sem permitir que desconhecidos decidam quem sou.
E talvez seja por isso que não tenho qualquer vontade de transformar o meu perfil numa montra aberta ao mundo.
Não quero necessariamente mais pessoas.
Quero pessoas reais.
Pessoas que lêem.
Que pensam.
Que discordam quando discordam.
Que dizem quando gostam.
Que sabem respeitar quando não gostam.
Pessoas que entendem que por detrás de uma publicação existe alguém.
Não um perfil.
Não uma métrica.
Não uma personagem.
Uma pessoa.
E talvez esta seja a minha maior diferença em relação à lógica de muitas redes sociais:
eu não publico para ser medida.
Não preciso de transformar aquilo que escrevo numa competição.
Não preciso de saber quem tem mais reacções.
Não preciso de transformar leitores em seguidores, seguidores em números e números em valor.
Se alguém lê e gosta, fico feliz.
Se alguém lê e pensa, fico ainda mais.
Se alguém encontra numa palavra minha alguma coisa que precisava de ouvir naquele dia, então já aconteceu aquilo que me interessa.
O resto é estatística.
E estatística nunca foi capaz de me dizer quanto vale uma pessoa.
Nem quanto vale uma palavra.
Nem quanto vale uma amizade.
Nem quanto vale a coragem de alguém que, depois de tudo aquilo que viveu, continua a escrever.
Por isso, talvez eu não precise de ser "criadora de conteúdos digitais".
Talvez seja simplesmente aquilo que sempre fui:
uma mulher que observa, pensa, vive, aprende e escreve.
E, para mim, isso ainda é suficiente.
Mais do que suficiente.
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