"Quantas..."
Quantas vezes vesti um sorriso como quem veste uma armadura invisível — não para celebrar, mas para sobreviver? Não um sorriso espontâneo, mas um artefacto cuidadosamente construído, ajustado ao contexto, polido para não levantar suspeitas. Um gesto mínimo, socialmente aceite, que encobre aquilo que não encontra linguagem imediata. Porque há dores que não cabem em conversas leves. Há estados internos que não se traduzem sem se desfigurarem. E então sorrimos — não porque estamos bem, mas porque ainda não encontramos um espaço onde seja seguro não estar. Eu sei o que é dizer “está tudo bem” como quem fecha uma porta por dentro. Sei o que é sustentar uma normalidade aparente enquanto, no interior, tudo pede interrupção. Não um colapso dramático, mas uma pausa verdadeira. Um lugar onde a dor possa existir sem ser apressadamente resolvida, minimizada ou, pior ainda, invalidada. Porque há uma forma subtil de violência que consiste em ensinar-nos a reprimir aquilo que sentimos para sermo...