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"Beleza de Ser Vulnerável"

 Passei grande parte da minha vida a ser a base sobre a qual os outros se apoiam. Fui aquele pilar firme, quase inabalável, que sustenta tudo quando as estruturas ao redor começam a ceder. Fui o farol em noites de tempestade, o ponto de equilíbrio no meio do caos. Não foi uma escolha consciente, mas antes um reflexo, uma adaptação forçada às circunstâncias que me rodearam. Habituada a ser a resposta para o que é incerto, a força tornou-se a minha identidade. A certa altura, vestir essa armadura deixou de ser uma defesa temporária e transformou-se numa segunda pele. Ao longo do tempo, percebi algo peculiar: quanto mais forte aparentava ser, menos as pessoas à minha volta conseguiam ver-me noutra luz. O mundo passou a acreditar na minha inabalável resiliência, e, em resposta, quase me convenci disso também. Contudo, no processo, esqueci como era baixar a guarda. Esqueci como era estar sem defesas, como era aceitar o momento em vez de sempre o tentar segurar com as duas mãos. Tornar-m...

"Tramas do Tempo"

 Ah, se eu pudesse! Se as minhas mãos frágeis tivessem a destreza de uma artesã divina, há muito teria reparado os erros que cruzei ao longo da vida. Imagino-me, sentada diante de um tecido antigo, a tramas já gastas pelo peso do tempo, mas ainda forte o suficiente para aguentar novas linhas, novas histórias. Pegaria uma agulha fina e firme. Primeiro, alinhavaria os pedaços rasgados de decisões mal feitas, pontos ligeiros, delicados, só o suficiente para sustentar o tecido do passado enquanto ajusto os detalhes. Não há pressa para esconder as marcas; antes quero integrá-las. São as cicatrizes das escolhas que me formaram, que mesmo imperfeitas moldaram o que sou hoje. Cada fio que passasse seria impregnado da sabedoria tardia que só os anos podem trazer. Depois, traria cores ao cinzento do que ficou para trás. Bordaria flores de pétalas largas e vibrantes por cima da saudade. Lilases, azuis e dourados... Ah, que exuberância de matizes. Transformaria cada ausência numa lembrança cel...

"Luz de Belém."

 A luz de Belém chega até mim como uma chama viva, ténue mas imensamente poderosa, portadora de um simbolismo que transcende o espaço e o tempo. Para mim, esta luz é mais do que um simples clarão ou um ritual. É um pedaço da eternidade, o reflexo do mistério de um Deus que escolheu iluminar o mundo através do nascimento humilde de Jesus em Belém. Imagino os pastores na noite do grande anúncio, as estrelas tão vívidas como promessas num céu profundo, a luz celestial a descer sobre eles enquanto uma voz lhes sussurra: "Não temais." Esta mesma mensagem ressoa em mim quando seguro a pequena chama que percorreu mares, terras e fronteiras para chegar às nossas mãos. É, para mim, como segurar um eco da própria história divina. A partilha desta luz não é um mero ato simbólico, mas uma proclamação da nossa fé comum, uma declaração de esperança e fraternidade. Sempre que estendo a chama a outro, sinto que estou a entregar mais do que fogo; estou a oferecer um gesto tangível de paz, sol...

Integridade e Libertação

 Se estou à procura da aprovação dos outros, já abdiquei, ainda que inconscientemente, de uma parte essencial da minha própria essência: a minha integridade. Este pensamento, por mais incómodo que seja, revela uma verdade brutal e inescapável sobre a condição humana. Desde cedo, somos condicionadas a procurar validação alheia, a ajustar os contornos da nossa alma às expectativas, às normas e aos caprichos de quem nos rodeia. É como se, ao buscar esse reflexo favorável nos olhos dos outros, perdêssemos de vista o espelho interno que nos devolve quem realmente somos. Na busca pela aprovação, a autenticidade é a primeira vítima. Afinal, como posso ser fiel aos meus valores mais íntimos se moldo cada palavra, cada gesto e cada decisão para agradar a terceiros? Cada concessão, por mais insignificante que pareça, é um pequeno desvio daquilo que eu realmente sou; é como riscar delicadamente a superfície de uma pintura que, embora não perfeita, é unicamente minha. E ao longo do tempo, esse...

"Escrever por escrever"

Escrever por escrever é um castigo amargo, um cárcere de palavras que não querem nascer. Como fingir no papel o que não vive no peito, como inventar rancor se só carrego mágoa mansa, essa sombra fria que nem grita, nem exige? Pedem-me que solte o ódio, mas o ódio é fogo que não possuo. Pedem-me que ataque com letras afiadas, mas minha pena pesa quando não sabe a quem ferir. Como posso escrever para quem não cabe em minha vontade de escrever? Ah, esse tormento de ser mal interpretada, de ver minha alma vestida por mãos alheias, cada verso arrancado do meu silêncio transformado em arma contra quem nem pensei. Que delírio é esse de roubar intenções e plantar destinatários onde só há vazio? Escrever é voo, não prisão. E me cobram asas quando só tenho cansaço. Querem que as palavras sejam veneno, mas eu só sei entregá-las em suas formas cruas, sem artifício, sem peso imposto, tão livres quanto minha mágoa deseja ser. Mas sabem o que me dói? Não é escrever… é ser obrigada a explicar o que é ...

"Amei"

 Eu amei com a coragem de quem não teme se perder, com a intensidade de quem sabe que amar é se expor,  é se despir das armaduras, das certezas, e confiar no outro como quem confia no próprio chão. Teci o amor com fios de verdade, com abraços que eram casa, com beijos que selavam promessas feitas no escuro da noite. Eu amei pelo todo, pelo eterno, pelo agora. Mas o que encontrei foi vazio, um eco distante onde deveria estar teu coração. Coração que não sabe amar, não sente saudades, não chama pelo nome certo. Um coração que finge calor enquanto gela quem o toca, que ilude com promessas sussurradas e foge quando a luz do dia pede respostas. Eu gritei por reciprocidade, por sentir o mesmo peso, o mesmo desejo, a mesma entrega. Mas enquanto eu carregava o mundo pra te alcançar, tu simplesmente me deixavas nas margens do teu querer inconstante. Amar não é isso, não pode ser isso. Amar é ser lar, é ser chão. É abraçar no meio da tempestade e não soltar mesmo quando os ventos rugem ...

"Eu sinto"

 Eu sinto que o amor tem essa força magnética, esse encanto que não se mede, não se pesa, não se quantifica. Ele apenas é, inteiro, autêntico, imenso. Eu sei disso porque trago em mim um coração que ama. Um coração que vive, respira e pulsa por um sentimento que, tantas vezes, me desafia e me reergue, tudo ao mesmo tempo. Amar, para mim, não é passageiro nem superficial. É raiz profunda, é saudade constante, é um reflexo de quem eu sou. Saudade, aliás, é irmã do amor. Caminha lado a lado com ele, me lembrando que o verdadeiro sentimento permanece, mesmo que os corpos se afastem ou que o tempo teime em passar. Há saudades de um beijo que ilumina a noite, saudades de acordar com o perfume do outro misturado ao meu. Existe uma ausência presente, que sussurra no fundo do peito, como um eco persistente: “Você ainda ama.” Amar é, para mim, sobre entrega e reciprocidade. Não acredito em sentimentos pela metade. O amor exige presença por completo, requer que cada abraço, cada palavra, seja...