"Castigo"
O pior castigo não se veste de tribunal, não se anuncia com sentenças, nem se cumpre perante olhares alheios. O pior castigo mora dentro de nós. É a consciência — silenciosa, inflexível, implacável. Ela não perdoa, não cansa, não admite distrações. A memória, fiel guardiã, retorna sempre. Ora de forma discreta, sussurrando entre os gestos do quotidiano, ora como um murro que nos deixa sem fôlego, golpeando o estômago e arrepiando a espinha. O mundo insiste em ensinar-nos a temer o externo: a vergonha, o julgamento, a humilhação, a perda de prestígio ou afeto. Mas esse temor pesa menos do que o inferno que carregamos dentro: aquele que nos aprisiona, onde conhecemos a verdade de nós mesmos, onde sentimos o peso do que poderíamos ter sido, mas falhámos. Onde percebemos, crua e silenciosamente, que desperdiçámos o que não volta, que escolhemos mal quando não podíamos errar, que ferimos quando devíamos ter cuidado. Sei. Sei os caminhos errados que tomei, as palavras que deixei de di...