"Lucidez"
Existe algo de profundamente caricatural nas pessoas que vivem arqueologicamente instaladas no passado e, pior ainda, esperam que tu também aceites residência permanente nas ruínas emocionais que elas próprias transformaram em património histórico. Como se evoluir fosse uma afronta pessoal. Como se a paz alheia tivesse o desplante imperdoável de lhes recordar aquilo que nunca conseguiram alcançar dentro de si. É um fenómeno quase filosófico, embora com fortes elementos de comédia involuntária: certas pessoas alimentam memórias antigas como quem conserva relíquias religiosas. Limpam-nas, reorganizam-nas, dramatizam-nas, repetem-nas até lhes retirarem qualquer ligação saudável à realidade. E depois observam-te com desconforto genuíno quando percebem que tu já não habitas emocionalmente esse lugar. Há nelas uma espécie de indignação silenciosa perante quem ousa sobreviver sem carregar permanentemente o cadáver psicológico do passado às costas. E talvez o mais simultaneamente triste...