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"Lucidez"

 Existe algo de profundamente caricatural nas pessoas que vivem arqueologicamente instaladas no passado e, pior ainda, esperam que tu também aceites residência permanente nas ruínas emocionais que elas próprias transformaram em património histórico. Como se evoluir fosse uma afronta pessoal. Como se a paz alheia tivesse o desplante imperdoável de lhes recordar aquilo que nunca conseguiram alcançar dentro de si. É um fenómeno quase filosófico, embora com fortes elementos de comédia involuntária: certas pessoas alimentam memórias antigas como quem conserva relíquias religiosas. Limpam-nas, reorganizam-nas, dramatizam-nas, repetem-nas até lhes retirarem qualquer ligação saudável à realidade. E depois observam-te com desconforto genuíno quando percebem que tu já não habitas emocionalmente esse lugar. Há nelas uma espécie de indignação silenciosa perante quem ousa sobreviver sem carregar permanentemente o cadáver psicológico do passado às costas. E talvez o mais simultaneamente triste...

"Religião Maia"

  Introdução A religião maia constitui um dos sistemas cosmológicos mais complexos e intelectualmente sofisticados desenvolvidos pelas civilizações pré-colombianas da Mesoamérica. Muito para além de um simples conjunto de crenças espirituais, a religião estruturava profundamente a organização política, social, científica e cultural da civilização maia, influenciando a perceção do tempo, da natureza, da autoridade e da própria existência humana. Entre aproximadamente 2000 a.C. e o período da conquista espanhola no século XVI, os Maias desenvolveram uma visão do universo marcada pela interligação entre divindade, astronomia, ritual e ordem cósmica, concebendo o mundo como uma realidade sagrada sustentada pelo equilíbrio entre forças naturais e sobrenaturais. A civilização maia floresceu em territórios correspondentes ao atual sul do México, Guatemala, Belize e partes das Honduras e de El Salvador, distinguindo-se pelo elevado desenvolvimento da escrita hieroglífica, da matemática, ...

"O Meu Nervo Vago Recusa Participar na Sociedade"

 A síndrome vasovagal é uma condição médica fascinante porque transforma o meu corpo numa espécie de mecanismo biológico anti-hipocrisia. Há pessoas capazes de: fingir calma; tolerar estupidez; sorrir em reuniões escolares; sobreviver a grupos de pais no WhatsApp; ouvir alguém dizer “vamos fazer um brainstorm” sem perder a vontade de viver. Eu não. O meu organismo possui a estabilidade emocional de um cavalo aristocrático durante fogo-de-artifício. O nervo vago detecta: stress; tensão; conflito; ansiedade; excesso de ruído humano; pessoas falsas; ou indivíduos que começam frases com: “Eu sou muito frontal…” e responde imediatamente: “Vamos apagar esta senhora antes que ela cometa um crime social.” Resultado: tensão arterial cai; coração abranda; visão transforma-se num documentário enevoado da RTP2; pernas deixam de acreditar no projecto; e eu aproximo-me lentamente do chão como uma condessa vitoriana consumida por emoções excessiv...