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"A senhora das calças azuis"

 Há dias que parecem escritos por um argumentista com um sentido de humor particularmente refinado. Hoje foi um deles. A realidade, quando decide superar a ficção, fá-lo sem pedir autorização nem desculpa. A manhã começou da melhor forma possível: um café com uma amiga inestimável. Daquelas amizades que não se medem pelo tempo, mas pela tranquilidade que nos oferecem. Estávamos sentadas quando uma senhora se aproximou e perguntou: — Já pagou o café? Respondi que não. Ela sorriu e disse: — Então deixe estar. Hoje pago eu. Mas olhe... a senhora de calças azuis que está lá fora está a deitar fogo pelos olhos e não para de olhar para si. Olhei. E há imagens que entram na nossa retina contra a nossa vontade e recusam terminantemente sair. Há coisas que simplesmente não se conseguem "desver". A minha amiga desatou a rir às gargalhadas. A senhora explicou-nos que conhecia muito bem aquela mulher e que não lhe tinha qualquer simpatia. Agradeci-lhe o gesto, não apenas pelo café, mas p...

"Eu Já Fui Essa Mulher"

Eu já fui essa mulher. Aquela que acreditava que amar significava estar sempre disponível. Aquela que respondia antes de ser chamada. Que antecipava necessidades. Que resolvia problemas que ninguém lhe tinha pedido para resolver. Que carregava pesos que não lhe pertenciam, convencida de que a força consistia precisamente em nunca deixar cair nada. Durante muito tempo, senti orgulho nisso. E compreendo porquê. Vivemos numa cultura que elogia a mulher que se sacrifica, mas raramente ensina a mulher a existir para além da utilidade que oferece. Aprendemos cedo a cuidar. A acolher. A organizar. A pacificar conflitos. A estar presentes. Aprendemos a reconhecer o cansaço dos outros antes de sabermos identificar o nosso. Aprendemos a ouvir, mas poucas vezes fomos ensinadas a escutar aquilo que, silenciosamente, gritava dentro de nós. Sem percebermos, confundimos disponibilidade com amor. Renúncia com generosidade. Exaustão com virtude. E o mais inquietante é que ninguém nos obriga. Vamos apre...

“A Gente Vai” e Não “A Gente Vamos”

A língua portuguesa tem um humor muito refinado. Há palavras que parecem uma coisa, mas são outra. Há verbos que juram fidelidade ao sujeito... até aparecer um caso especial. E depois há a gente . Essa pequena expressão que conseguiu realizar um feito extraordinário: parece plural. Significa plural. Mas exige o verbo no singular. É um dos maiores golpes de teatro da gramática. Imaginemos que um estrangeiro aprende português. Lê a frase: A gente vai ao cinema. Olha para o verbo. Olha para "a gente". Olha novamente para o verbo. E pergunta, legitimamente: "Mas... vão quantas pessoas?" Resposta: Várias. Então por que razão o verbo está no singular? Porque a língua portuguesa respondeu: "Porque sim." Naturalmente, há uma explicação científica. Mas "porque sim" continua a ser emocionalmente mais honesto. Afinal, o que é "a gente"? Muita gente pensa que "a gente" significa simplesmente "nós...

"Gregório VIII: o Centésimo Septuagésimo Primeiro Papa da Igreja Católica"

Após a morte de Urbano III, a Igreja de Roma elegeu Gregório VIII , reconhecido como o centésimo septuagésimo primeiro Papa da Igreja Católica e sucessor de Urbano III na Sé de Roma. O seu pontificado decorreu entre os anos 1187 e 1187 da era cristã . Apesar de ter durado apenas cerca de dois meses, ficou marcado pela resposta imediata da Igreja à perda de Jerusalém e pelo apelo à Terceira Cruzada . Origem e formação Gregório VIII nasceu em Benevento , na Itália, por volta do ano 1100 . O seu nome de nascimento era Alberto di Morra . Recebeu sólida formação em direito canónico e teologia, tornando-se um dos mais respeitados diplomatas da Santa Sé. Antes de ser eleito Papa, serviu vários pontífices como legado papal em importantes missões pela Europa e pelo Oriente, adquirindo grande experiência diplomática. Eleição ao papado Após a morte de: Urbano III os cardeais elegeram Alberto di Morra em 21 de outubro de 1187 , apenas um dia depois do falecimento do seu predecessor. Ao...

"Voluntário"

Este é um acto voluntário. Não nasce da resignação. Nasce da liberdade. Por isso digo-o sem ironia, sem ressentimento e sem necessidade de convencer ninguém. Fiquem com a versão de mim que vos for mais conveniente. Aquela que construíram sem nunca terem suportado o incómodo de me conhecer. Aquela que nasceu de frases interrompidas, de conversas pela metade, de interpretações precipitadas, de silêncios preenchidos pela imaginação e de histórias repetidas tantas vezes que acabaram por adquirir o estatuto ilusório de verdade. Fiquem com ela. Fiquem com a versão da vilã. Aquela que, convenientemente, explicava todos os desconfortos sem obrigar ninguém a olhar para dentro de si. A personagem que servia de palco para culpas que pertenciam a outros, de medos que nunca foram meus e de responsabilidades que alguém precisava desesperadamente de colocar em ombros alheios. Fiquem também com a versão da coitada. Da vítima permanente. Da mulher incapaz. Da ingénua. Da burra. Da que não percebe. Da q...

"O Regresso a Si: A Mais Longa Peregrinação da Existência"

Há viagens que se medem em quilómetros. Outras, em fusos horários. Algumas exigem passaporte. Mas existe uma que atravessa toda a condição humana e que não aparece em nenhum mapa: a viagem de regresso a si própria. É, talvez, a mais longa de todas. E, paradoxalmente, a única cujo destino sempre esteve connosco. Há um momento — raro, silencioso e profundamente transformador — em que percebemos que passámos demasiado tempo a sobreviver em lugares onde a nossa alma nunca chegou verdadeiramente a habitar. Não falo apenas de lugares físicos. Falo de relações onde nos diminuímos para sermos aceites. De ambientes onde aprendemos a sorrir enquanto nos íamos apagando. De papéis que desempenhámos com competência, mas sem verdade. De expectativas alheias que, lentamente, substituíram a voz da nossa própria consciência. Sem darmos conta, começamos a viver uma existência exteriormente coerente e interiormente desencontrada. Continuamos a cumprir. Continuamos a produzir. Continuamos a responder. Mas...

"Urbano III: o Centésimo Septuagésimo Papa da Igreja Católica"

Após a morte de Lúcio III, a Igreja de Roma elegeu Urbano III , reconhecido como o centésimo septuagésimo Papa da Igreja Católica e sucessor de Lúcio III na Sé de Roma. O seu pontificado decorreu entre os anos 1185 e 1187 da era cristã e foi marcado pelo agravamento das tensões entre o papado e o Sacro Império Romano-Germânico, bem como pelas notícias das graves derrotas dos Estados cristãos no Oriente. Origem e formação Urbano III nasceu em Milão , na Itália, por volta do ano 1120 . O seu nome de nascimento era Umberto Crivelli . Pertencia a uma influente família lombarda e recebeu sólida formação religiosa e jurídica. Antes de ser eleito Papa, foi arcebispo de Milão e cardeal, distinguindo-se pela defesa dos direitos da Igreja e pela sua firme oposição às interferências imperiais. Eleição ao papado Após a morte de: Lúcio III os cardeais elegeram Umberto Crivelli em 25 de novembro de 1185 , que adoptou o nome de Urbano III. A sua eleição deu continuidade à política de fir...