Mensagens

"Grata por tudo"

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 Hoje é 24 de dezembro e só agora consegui sentar-me, descansar um pouco e escrever. Não foi apenas trabalho — foi partilha, foi presença, foi coração em movimento. Ao longo do dia, muitos amigos quiseram estar um pouco comigo. Uns estiveram perto fisicamente, outros ligaram, outros enviaram mensagens. Todos, de alguma forma, perguntaram se eu precisava de alguma coisa, se eu estava bem, se eu precisava de companhia. E eu sorrio, porque é bonito sentir esse cuidado silencioso que não se pede e, ainda assim, chega. E do blog… chegaram-me emails. Muitos emails.  Foram tantos que ainda me comovo só de pensar. Pessoas que nunca vi ao vivo, mas que me leram, que se reconheceram nas minhas palavras e decidiram escrever-me para desejar boas festas, oferecer apoio, enviar carinho ou simplesmente dizer “estou aqui”. Peço desculpa por demorar a responder — ainda há muitos por abrir com calma — mas vou responder a todos. Um por um. Como merece quem se deu ao trabalho de me escrever. ...

"Incrível"

 Há um momento muito específico na vida adulta em que deixamos de acreditar que as séries de humor exageram. É um instante subtil, quase imperceptível, em que o cérebro abandona a incredulidade e aceita, com um suspiro cansado, que a realidade não só alcançou a ficção como a ultrapassou em velocidade terminal. Esse momento aconteceu-me durante um almoço. Um almoço perfeitamente normal. Casais sentados. Conversa educada. Talheres a cumprir a sua função. Nada fazia prever que, em breve, estaríamos todos a assistir à apresentação informal de um sistema conjugal parametrizado , desenhado por duas mentes que claramente nunca confiaram no acaso. Conheci então o casal. Ele, físico. Ela, biofísica. Isto não é um detalhe biográfico — é uma advertência. Pessoas assim não “vivem juntas”. Co-habitam em regime experimental . O amor, para eles, não é uma emoção. É uma variável dependente. A conversa evoluía de forma relativamente estável até que, talvez movidos por um excesso de transparência...

"O humor"

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 Existem pessoas peculiares. E depois existem aquelas tão extraordinariamente peculiares que o cérebro, num acto de legítima autodefesa cognitiva, desiste de as classificar como humanas e recorre imediatamente ao arquivo zoológico interno. Não é crueldade — é eficiência mental. A comparação surge sozinha, limpa, inequívoca. Olhamos, ouvimos… e pronto. Ah. Já sei. Hoje conheci uma dessas pessoas. O reconhecimento foi instantâneo. Bastou abrir a boca. O tom, a cadência, a convicção absoluta de que cada som produzido era, por si só, um contributo relevante para o universo. Fez-me lembrar a perua da fazenda. Não metaforicamente. Literalmente. A perua era uma criatura fascinante. Falava muito — ou melhor, vocalizava com entusiasmo — sem que isso tivesse qualquer impacto positivo no ambiente. Nunca pareceu duvidar de nada, muito menos de si própria. E tinha uma característica marcante: sempre que chovia, ficava imóvel, de pescoço esticado, a olhar para o céu, como se aguardasse ilumin...

"Perua"

 Existem pessoas peculiares. Não “peculiares” no sentido romântico, charmoso ou ligeiramente excêntrico que a sociedade gosta de romantizar quando convém, mas peculiares no sentido quase etológico — indivíduos cuja simples presença desperta em nós uma memória ancestral, primitiva, profundamente animal. Não por maldade, note-se. É um reflexo. Um curto-circuito cognitivo. Olhamos para a pessoa, ela abre a boca… e o cérebro, educado mas honesto, responde: isto lembra-me qualquer coisa . Hoje conheci uma dessas pessoas. O reconhecimento foi imediato, quase científico. Não houve espaço para reflexão, nem para culpa. Foi como reconhecer um cheiro ou um som: automático, inevitável, profundamente esclarecedor. Aquela pessoa fez-me lembrar a perua que temos na fazenda. Agora, convém esclarecer: não se trata de uma metáfora leviana. A perua em questão era, ela própria, uma criatura singular. Não no sentido majestoso — isso seria atribuir-lhe uma dignidade que nunca reclamou — mas numa pec...

"Época"

 Vivemos numa época extraordinária. Extraordinária no sentido etimológico do termo: fora do ordinário, fora do razoável, fora de qualquer noção minimamente aceitável de bom senso. Uma época em que toda a gente tem opinião, quase ninguém tem informação, e absolutamente ninguém tem dúvidas — o que é, convenhamos, o verdadeiro milagre dos tempos modernos. Antigamente, para se ser ignorante era preciso esforço; hoje basta ter ligação à internet e uma convicção inflamável. O cidadão contemporâneo, esse titã do pensamento instantâneo, acorda todas as manhãs com a nobre missão de “ter uma opinião sobre tudo”. Não importa o quê: geopolítica do Cáucaso, neurocirurgia pediátrica, alterações climáticas ou a vida privada de um actor que nunca pediu para existir. O importante não é compreender — isso seria excessivamente trabalhoso — mas posicionar-se . Posicionar-se é fácil, rápido e, sobretudo, isento de responsabilidade intelectual. A dúvida, essa antiga ferramenta do pensamento, foi entre...

"Caminhos"

 Pode parecer simples — quase pouco — aquilo que te escrevo hoje. Uma frase curta, directa, sem ornamentos. Mas se soubesses o peso real que ela carrega, talvez te sentasses em silêncio e a deixasses trabalhar dentro de ti o dia inteiro. Na vida, ou tens um caminho… ou fazes um. Não há uma terceira opção. Não há neutralidade. Não há esse lugar confortável onde se espera que tudo se resolva sozinho. Quem não escolhe, escolhe ficar. Quem não decide, permite que a vida decida por si. E isso, quase sempre, custa caro. Ter um caminho é privilégio de quem recebeu estrutura, direcção, referências. É caminhar sobre algo que já existe: valores transmitidos, afectos consistentes, exemplos claros. É avançar com menos dúvidas porque alguém, antes, abriu estrada. Mas fazer um caminho… isso é outra coisa. Fazer um caminho é para quem não herdou mapas. Para quem teve de aprender sozinho, errando, caindo, levantando-se sem aplauso. É para quem não teve chão firme, mas recusou viver perdido....

"A verdade..."

 Sabes qual é a grande verdade da vida? É que tanto o simples como o complexo dão trabalho. Não há atalhos reais, apenas escolhas disfarçadas de conforto. Ninguém nos contou — ou talvez não quisemos ouvir — que a vida não seria leve todos os dias. Há dias em que ela pesa, exige, confronta. Resolver o básico dá trabalho. Levantar cedo quando o corpo pede descanso. Manter rotinas quando a motivação falha. Pagar contas, cumprir horários, ser correcto mesmo quando ninguém está a ver. Encarar o difícil dá ainda mais trabalho. Mudar hábitos antigos. Curar traumas que não escolheste, mas que te habitam. Assumir responsabilidades sem terceirizar culpas. Mas fugir… fugir pesa em dobro. A vida não é essa fantasia bem editada que muitos vendem. A vida é chão. É queda e insistência. É persistência silenciosa. E, sobretudo, é escolha. Escolha diária entre o que constrói e o que adia. Entre o que exige agora e o que cobra depois. O simples dá trabalho. O complexo dá trabalho. O que...