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"Oração Repetitiva e da Contagem das Orações"

Entre a Palavra, o Número e o Silêncio. Introdução A oração repetitiva, frequentemente interpretada de modo redutor como um exercício de automatismo devocional, revela-se, quando submetida a um exame teológico, antropológico e fenomenológico rigoroso, como uma das expressões mais densas da relação humana com o sagrado. A repetição, longe de empobrecer o sentido, pode operar como dispositivo de aprofundamento da consciência, de sedimentação da memória espiritual e de integração entre o corpo, a linguagem e o tempo. Este ensaio propõe-se analisar a génese histórica e o alcance simbólico da prática de contar orações, situando-a no horizonte mais amplo da experiência religiosa comparada e da reflexão filosófica sobre a interioridade. Herança judaico-cristã e economia da palavra sagrada A matriz da oração cristã primitiva encontra-se profundamente enraizada na tradição salmódica do judaísmo. Os cento e cinquenta Salmos, enquanto corpus poético-teológico, constituem uma cartografia integral ...

"Reflexão"

Todos procuramos equilíbrio, até mesmo aqueles que não sabem que o fazem. Eu própria, enquanto atravesso os dias como quem caminha por um território de neblina suave, descubro que a minha procura não é por um ponto de chegada, mas por uma forma de presença. Não persigo o fim da estrada; cultivo a maneira de a percorrer. Há em mim uma cadência interior, quase musical, que me convida a observar, a questionar e a sentir, como se cada passo tivesse de ser dado em harmonia com algo que me transcende e, ao mesmo tempo, me habita. Viver, para mim, tornou-se um exercício de afinação. Afino a consciência, afino a intenção, afino o olhar. Procuro que o que penso, o que digo e o que faço não sejam três vozes dissonantes, mas um único acorde. Talvez seja isso que chamo integridade: não a ausência de falhas, mas a coragem de reconhecer as próprias rupturas e, ainda assim, insistir na coerência. Foi neste estado de escuta interior que hoje me detive a refletir sobre a diferença, profunda e muitas ve...

"Grandeza"

 Sabes o que dói de verdade? Dói num lugar que não se vê, mas que arde. Dói quando eu chego inteira, de mãos abertas, sem armadura, sem cálculo, sem reservas. Quando levo comigo a minha verdade crua, a minha intenção limpa, a minha presença sem ensaio. E, mesmo assim, sou recebida como se fosse demais ou como se fosse de menos. Como se a minha entrega tivesse peso a mais para uns e valor a menos para outros. Dói quando faço tudo com o coração exposto — e, ainda assim, me fazem sentir errada por sentir, exagerada por cuidar, fraca por acreditar. Como se a minha sensibilidade fosse um defeito a corrigir e não uma força a honrar. Como se a minha forma de amar o mundo tivesse de ser ajustada para caber nos limites estreitos de quem nunca ousou amar para lá do que é seguro. Durante muito tempo, a primeira coisa que fiz foi virar a dor contra mim. Perguntei-me onde falhei, o que devia ter sido diferente, que parte de mim precisava ser diminuída para ser aceite. Encolhi gestos, silencie...

"Pensa nisto!"

 Em pleno século XXI, num tempo em que os satélites circundam a Terra, a inteligência artificial aprende a linguagem humana e a ciência prolonga a vida para lá do que outrora se julgava possível, continuamos a tropeçar numa contradição essencial: a evolução material avança a um ritmo vertiginoso, enquanto a valorização da vida humana permanece, em demasiados lugares, rudimentar, frágil e desigual. É como se tivéssemos aprendido a dominar o mundo, mas ainda não tivéssemos aprendido verdadeiramente a cuidar uns dos outros dentro dele. A miséria, nesse cenário, não é apenas uma sombra persistente. É uma presença estrutural, quase institucionalizada, que se infiltra nos sistemas económicos, nas decisões políticas e até na forma como narramos a realidade. Fala-se dela como um problema a resolver, mas, na prática, muitas vezes trata-se como um elemento a gerir. E há uma diferença profunda entre erradicar e administrar: erradicar exige ruptura; administrar permite continuidade. Há uma i...

"Até qualquer dia"

 Agradeço as mensagens como quem recolhe migalhas de luz num quarto onde a janela ficou aberta demais. Os telefonemas tocaram longe, como sinos num vale onde eu já não estava. Os emails chegaram a um lugar vazio, a um nome que por dias deixei de reconhecer como meu. Notaram a minha ausência. Notaram o espaço que as palavras deixaram na mesa, a cadeira vazia onde a escrita costumava sentar-se. E essa atenção, tão simples, doeu mais do que qualquer ataque. Porque foi amor. E o amor, quando chega, encontra sempre o ponto frágil. Desde quinta-feira parti. Fui para outro lugar, como quem foge sem mapa, como quem leva apenas o corpo e deixa a alma a meio da estrada. Caminhei por paisagens que não sabiam o meu nome, dormi sob tectos que não guardavam os meus sonhos, respirei um ar que não me reconhecia. E, no meio de tudo isso, perdi algo que ainda não sei chamar pelo nome. Algo quebrou dentro de mim. Não fez barulho. Não sangrou. Apenas deixou um espaço onde an...

"Espelho — Ensaio sobre a Liberdade Interior"

Há um instante, quase imperceptível, em que a maldade do outro nos toca. Não é ainda reação. É um estremecimento. Um microsegundo em que a consciência hesita entre permanecer ou abandonar-se. É nesse intervalo que nasce a tentação de nos tornarmos aquilo que nos feriu. Responder na mesma moeda parece, à superfície, um gesto de autonomia. Um ato de afirmação. Mas, se olharmos com atenção filosófica, percebemos o paradoxo: ao reagir por reflexo, não escolhemos — somos escolhidos. A nossa ação deixa de ser expressão da nossa vontade e passa a ser continuação da vontade alheia. Tornamo-nos prolongamento do gesto que nos atacou. A verdadeira questão, então, não é o que o outro fez. É quem eu me torno a partir disso. Existir, no sentido mais radical, é assumir responsabilidade por aquilo que fazemos com aquilo que nos acontece. Não controlamos a injustiça, a palavra lançada, a intenção hostil. Mas controlamos o modo como essas coisas nos atravessam e o lugar que lhes damos dentro de nós. Qua...

"Livre — Liturgia da Consciência"

Eu não sou totalmente livre. Digo-o como quem abre o peito e como quem acende um altar. Digo-o em voz alta para que o mundo me atravesse e para que eu não me esqueça de mim. Digo-o porque a liberdade não é um estado de repouso, mas uma combustão contínua — uma chama que exige oxigénio ético, vigilância interior e coragem para não se apagar. Falo hoje porque amanhã não é promessa, é hipótese. Um território instável, uma geografia que tanto me pertence como me escapa. Caminho sobre essa fronteira com a lucidez febril de quem sabe que existir é habitar a tensão entre o que escolhe e o que o escolhe, entre o que deseja e o que o mundo impõe. A vida nunca nos prometeu felicidade. Prometeu travessia. E nós, herdeiros de séculos que se repetem como um refrão trágico, transformámos a travessia em labirinto: guerras que se transmitem como genealogias do ódio, violências que mudam de linguagem mas não de intenção. De um lado, o excesso que anestesia. Do outro, a carência que dilacera. No meio, u...

"Amor e Pertencimento — Confissão"

Eu não encontrei respostas. Encontrei-me. Nestes últimos dois anos, caminhei por um território onde a linguagem falha e a alma grita. Um lugar onde a dor e o amor não se alternam — colidem. Onde nada é limpo, nada é simples, nada é leve. Tudo é humano. E eu, no centro disso tudo, exposta, sem armadura, sem argumento, apenas presença. O ponto inicial foi a dor. Não uma dor elegante, dessas que cabem em metáforas bonitas. Foi uma dor crua, sem estética, sem piedade. A decepção que me roubou o chão. A impotência que me fez olhar para o teto à noite e perguntar a Deus porquê. A culpa — essa palavra pesada — por não conseguir proteger o coração que bate fora do meu corpo, nos meus filhos, naquilo que amo com uma ferocidade que me assusta e me define. Fui caracterizada. Adjetivada. Reduzida a versões de mim que não reconheci no espelho. Fui injuriada, humilhada, esmagada por narrativas que não escrevi, mas que tentaram escrever-me. Expliquei-me até a voz cansar. Justifiquei-me até a dignidad...

"Entre a Urna, o Café e a Sala Cheia: Um Domingo Meu"

Era o segundo domingo do Tempo Comum. Gosto desta expressão, porque parece dizer que Deus não habita apenas os dias grandes, mas também os dias simples, aqueles que começam sem solenidade e se constroem no gesto pequeno, na escolha discreta, na presença silenciosa. Era também dia de eleições presidenciais. E, na nossa casa, isso sente-se como um compromisso partilhado. Votar vamos todos — eu, o meu marido, os meus filhos que já têm idade para isso. Só o mais novo fica de fora, ainda criança, ainda a aprender, talvez sem o saber, que um dia também lhe caberá este gesto simples e pesado de significado. Sou uma mulher que sempre votou. Não por hábito, mas por respeito. Para exercer um direito, sim, mas sobretudo para cumprir um dever. Levo comigo a memória de quem lutou para que hoje possamos escolher, para que a nossa voz não seja um favor concedido, mas uma conquista mantida. Fui logo de manhã cedo. Queria evitar pessoas, encontros, filas. Queria que aquele momento fosse só meu, limp...

"A Fisiologia do Amor: Uma Sinfonia Neurobiológica da Condição Humana"

O amor, esse fenómeno simultaneamente arcaico e vanguardista, inscreve-se no corpo humano como uma coreografia invisível de impulsos eléctricos, secreções hormonais e arquitecturas neuronais que, em uníssono, constroem a mais complexa das experiências afectivas. Longe de ser apenas um delírio lírico ou uma abstração romântica, o amor possui uma materialidade fisiológica precisa, quase cartografável, que transforma o organismo num laboratório vivo de emoção, memória e desejo. No cerne desta experiência encontra-se o cérebro, verdadeiro maestro desta orquestra bioquímica. Quando o olhar encontra o objecto do afecto, o sistema límbico — essa antiga cidadela emocional da mente — entra em estado de activação intensa. A amígdala avalia a relevância emocional do estímulo, o hipocampo arquiva a memória sensorial do encontro, e o córtex pré-frontal, ironicamente responsável pela prudência e pelo juízo crítico, vê-se temporariamente silenciado, permitindo que a emoção suplante a razão numa susp...