"Não te odeio"
Durante anos ensinaram-nos que o oposto do amor é o ódio. Mas essa ideia sempre me pareceu incompleta. O ódio não é ausência. O ódio é presença. É uma presença amarga, corrosiva e destrutiva, mas ainda assim uma presença. Quem odeia continua ligado ao objecto do seu ódio. Continua a conceder-lhe tempo, pensamento, energia e importância. Continua, de certa forma, a transportar essa pessoa dentro de si.
Por isso, quando alguém me diz «não te odeio», não vejo necessariamente uma ruptura. Vejo apenas uma tentativa de paz. Porque o ódio, por mais intenso que seja, continua a ser uma relação. Continua a ser uma forma de dependência emocional.
Já a indiferença pertence a outro território.
A indiferença não nasce da raiva. Não nasce da vingança. Não nasce sequer da desilusão. A verdadeira indiferença surge quando tudo isso já passou. Quando a emoção se consumiu a si própria e deixou apenas silêncio. Não o silêncio das palavras, mas o silêncio interior.
É por isso que a frase «não sinto nada por ti» possui uma profundidade que muitos não compreendem. Não é um insulto. Não é uma provocação. Nem sequer é uma tentativa de ferir. É apenas uma constatação.
Significa que a tua presença já não altera o meu estado de espírito.
Que a tua ausência também não.
Significa que deixaste de ocupar espaço dentro de mim.
Não há raiva quando o teu nome é pronunciado. Não há saudade quando te recordo. Não há alegria, tristeza, ressentimento ou expectativa. Apenas neutralidade.
E talvez seja essa a forma mais absoluta de liberdade que existe.
Porque a maturidade não consiste em amar toda a gente. Também não consiste em odiar menos. Consiste em compreender que a nossa energia emocional é limitada e que não pode ser distribuída indiscriminadamente. O amor, a amizade, a lealdade e o carinho são recursos demasiado valiosos para serem desperdiçados em quem não acrescenta significado à nossa existência.
Eu sinto.
Sinto profundamente.
Sinto amor por quem caminha ao meu lado.
Sinto gratidão por quem esteve presente quando a vida exigiu coragem.
Sinto carinho por quem me conhece para além das aparências.
Sinto respeito por quem merece respeito.
Não me tornei fria. Não me tornei distante. Não me tornei incapaz de amar.
Pelo contrário.
Aprendi a reservar os meus sentimentos para quem realmente tem um lugar na minha vida.
E talvez por isso já não odeie ninguém.
O ódio exige uma dedicação que não estou disposta a oferecer.
O ódio exige uma importância que poucas pessoas merecem.
Há pessoas que amo.
Há pessoas que admiro.
Há pessoas que guardo com ternura na memória.
E depois existem tantas outras por quem simplesmente não sinto nada.
Nem amor.
Nem ódio.
Nem desprezo.
Nem interesse.
Nada.
E, ao contrário do que muitos pensam, esse nada não é crueldade.
É apenas a consequência natural de quem deixou de ter qualquer relevância emocional.
Porque o verdadeiro fim de uma ligação não acontece quando duas pessoas discutem. Nem quando se afastam. Nem sequer quando deixam de se falar.
O verdadeiro fim acontece quando uma delas pode olhar para a outra e dizer, sem raiva, sem amargura e sem desejo de ferir:
«Eu não te odeio.
Mas também não te amo.
A verdade é mais simples do que isso.
Eu simplesmente não sinto nada por ti.»
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