"O que é que Maria e Jesus revelam sobre o ideal humano?"

Existem figuras históricas que admiramos pelo que realizaram, outras pelo que pensaram e outras ainda pelo poder que exerceram sobre o seu tempo. A minha admiração por Maria e por Jesus nasce de uma razão diferente. Não os admiro primariamente pelo lugar que ocupam na história, mas pela visão da humanidade que encontro neles. Ao contemplá-los, não vejo apenas duas figuras centrais da tradição cristã; vejo duas respostas distintas e complementares à questão que acompanha a humanidade desde sempre: o que significa viver plenamente?

A minha admiração por Maria nasce, antes de mais, da sua humanidade. Ao contrário do que muitas vezes se supõe, aquilo que mais me impressiona nela não é o extraordinário, mas precisamente a forma como vive o extraordinário sem deixar de ser profundamente humana. Não encontro nela a arrogância dos que se julgam escolhidos, nem a exaltação dos que procuram reconhecimento. Encontro uma mulher cuja grandeza cresce na exacta medida da sua humildade.

Vivemos numa época que confunde frequentemente valor com visibilidade. Somos levados a acreditar que a importância de uma pessoa se mede pela sua capacidade de se afirmar, de se destacar ou de ocupar espaço. Maria desafia silenciosamente essa lógica. A sua vida sugere uma verdade mais profunda: aquilo que possui maior valor nem sempre é aquilo que mais se exibe. Há uma grandeza que floresce no silêncio, uma força que não necessita de se impor e uma dignidade que não depende do olhar dos outros para existir.

É precisamente esta liberdade interior que me fascina. Maria parece possuir aquilo que Santo Agostinho procurou durante toda a vida: um coração ordenado. Agostinho compreendeu que a infelicidade humana nasce muitas vezes da desordem dos nossos amores, quando atribuímos carácter absoluto àquilo que é transitório. Procuramos segurança onde tudo passa, procuramos plenitude onde tudo é limitado e procuramos repouso onde nada consegue verdadeiramente satisfazer-nos. Maria surge como o oposto desta dispersão. A sua vida manifesta uma unidade interior rara, uma orientação constante para aquilo que considera verdadeiro e essencial.

Admiro-a também porque nela a força assume uma forma particularmente elevada. Não é a força da imposição, da conquista ou da confrontação. É a força da permanência. A capacidade de permanecer fiel quando não compreende tudo, de continuar a confiar quando não possui todas as respostas e de continuar a amar quando amar implica sofrimento. Há uma maturidade humana extraordinária nesta disposição. A fidelidade torna-se, nela, não uma limitação da liberdade, mas a sua expressão mais nobre.

Como mulher, esposa e mãe, Maria revela algo que considero profundamente belo: a capacidade de transformar o amor numa forma de serviço sem jamais perder a própria dignidade. O seu amor não é possessivo nem centrado em si mesmo. Pelo contrário, é um amor que permite ao outro crescer, cumprir o seu caminho e realizar a sua vocação. Talvez por isso continue a ser uma das figuras femininas mais admiradas da história. Não porque represente um ideal abstracto, mas porque encarna virtudes que permanecem universalmente humanas: a fortaleza, a ternura, a fidelidade, a prudência e a generosidade.

Se Maria me revela a beleza de uma humanidade receptiva à verdade, Jesus revela-me a beleza da verdade plenamente vivida.

Aquilo que mais me impressiona em Jesus é a unidade da sua pessoa. A história está repleta de indivíduos brilhantes que não conseguiram viver segundo os princípios que defendiam e de pessoas moralmente admiráveis que não possuíam uma visão particularmente profunda da realidade. Em Jesus, porém, pensamento, palavra e acção parecem formar uma única realidade. Existe uma coerência quase absoluta entre aquilo que ensina e aquilo que vive.

É precisamente essa coerência que torna a sua figura tão intelectualmente desafiante. Jesus não convence apenas através de argumentos; convence através da sua própria existência. A autoridade que exerce não nasce da força, do prestígio ou da posição social. Nasce da credibilidade. As suas palavras possuem peso porque são confirmadas pela sua vida.

São Tomás de Aquino afirmava que o bem possui uma tendência natural para se comunicar. Ao observar Jesus, compreendo melhor esta ideia. A sua presença não parece orientada para a afirmação do próprio ego, mas para o florescimento dos outros. Ele não procura dominar consciências; procura despertar consciências. Não procura dependência; procura liberdade. Não procura admiradores; procura transformação interior.

Por isso considero profundamente redutora a ideia de que Jesus atraía pessoas explorando fragilidades humanas. Os relatos evangélicos sugerem exactamente o contrário. Jesus aproxima-se dos vulneráveis não para os utilizar, mas para lhes restituir aquilo que frequentemente lhes era negado: dignidade, esperança e sentido. O manipulador identifica fraquezas para aumentar o seu poder. Jesus encontra-se com a fragilidade para libertar quem sofre do peso da exclusão, da culpa ou do desespero.

Existe ainda um aspecto que considero particularmente admirável: a forma como une qualidades que nos seres humanos tendem a entrar em conflito. É firme sem ser inflexível. É misericordioso sem relativizar a verdade. É humilde sem perder autoridade. É profundamente racional sem se tornar frio. É sensível sem ser sentimental. Esta harmonia confere à sua personalidade uma riqueza humana difícil de encontrar em qualquer outra figura histórica.

Talvez seja precisamente aqui que a minha admiração por Maria e por Jesus converge. Ambos me recordam que a verdadeira grandeza humana não reside na capacidade de controlar os outros, mas na capacidade de ordenar a própria vida ao bem. Ambos mostram que a liberdade não consiste em fazer tudo o que se deseja, mas em desejar aquilo que verdadeiramente merece ser amado. Ambos testemunham que a dignidade humana atinge a sua expressão mais elevada quando a inteligência procura a verdade, quando a vontade escolhe o bem e quando o amor deixa de ser apenas sentimento para se tornar uma forma de existência.

É por isso que os admiro. Não apenas como figuras religiosas, mas como referências humanas. Em Maria encontro a beleza de uma alma plenamente disponível à verdade. Em Jesus encontro a beleza da verdade tornada vida. E quanto mais os contemplo à luz da reflexão de Agostinho e de Aquino, mais me convenço de que a sua permanência na história não se explica apenas pela fé dos seus seguidores, mas também pela extraordinária profundidade humana que continuam a revelar a quem os observa com atenção intelectual e honestidade de espírito.

______________________________________________

 © 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.

Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Entre a morte e a memória"