"A Extraordinária Convicção de Que Continuamos Todos Obcecados"
Ontem estive a observar. Gosto de observar. É um hábito curioso: enquanto uns falam, outros revelam-se. E há revelações que dispensam qualquer comentário, porque já nascem embrulhadas na sua própria caricatura. Descobri uma das mais fascinantes ilusões produzidas pelo ego humano. Há adultos — sim, adultos, com idade suficiente para já terem pago impostos, renovado documentos e, em teoria, aprendido alguma coisa sobre a natureza humana — que acreditam genuinamente que, quando alguém abandona um lugar, uma relação, um grupo ou um ambiente, continua emocionalmente acorrentado àquilo de que se afastou. É uma ideia enternecedora. Segundo esta lógica, quem fecha uma porta passa o resto da vida encostado à fechadura, a escutar o que acontece do outro lado. Quem muda de emprego acorda todas as manhãs a perguntar-se quem ficou com a secretária. Quem vende uma casa vive obcecado com a disposição dos móveis dos novos proprietários. Quem deixa um restaurante passa meses angustiado porque mudaram a...