"Bode expiatório"
Há quem diga que a memória é um refúgio; no meu caso, é também um arquivo implacável. Não esquece, não suaviza, não negocia com o tempo. Recorda com a nitidez de quem sabe que a verdade, mesmo quando distorcida pelos outros, deixa sempre vestígios — e eu aprendi a lê-los. Fui, em momentos distintos, aquilo a que chamam bode expiatório. Não por vocação, mas por conveniência alheia. É sempre mais fácil concentrar a culpa numa só pessoa do que distribuí-la pela complexidade dos factos. Há uma espécie de economia moral nisso: simplifica-se o erro, purifica-se o grupo, sacrifica-se o indivíduo. E assim se constrói uma narrativa confortável, onde a verdade é menos importante do que a estabilidade das aparências. Eu conheço bem esse mecanismo — não o estudei apenas, vivi-o. Senti o peso silencioso de carregar culpas que não eram minhas, e o mais subtil ainda: a expectativa de que o fizesse com discrição, quase com gratidão. Mas se o bode expiatório é o corpo que absorve a culpa, o gasl...