“Purificação”
Há uma tendência cada vez mais visível — e, arrisco dizer, intelectualmente preguiçosa — de procurar transformação onde ela não exige compromisso. Multiplicam-se os rituais, os símbolos, os gestos performativos de “purificação”, como se a mudança pudesse ser convocada por via estética, aromática ou quase mística… sem que se toque no essencial. Purifica-se o ar. Organiza-se o espaço. Acendem-se velas, queimam-se incensos, evocam-se energias. E, não raras vezes, replicam-se também certos discursos importados de contextos onde a espiritualidade se transforma em encenação — verdadeiros palcos onde se dramatiza o mal, se amplifica a culpa e se atribui ao “demónio” tudo aquilo que exigiria responsabilidade pessoal, enquanto, com notável conveniência, se solicita entrega, devoção e até contribuição material como se isso, por si só, resolvesse aquilo que nunca foi enfrentado. E, no entanto, permanece intocado aquilo que verdadeiramente desorganiza: o vínculo humano. Porque não há ri...