"Altares invisíveis"
Vivemos numa era que ergue altares invisíveis no coração das cidades. Altares onde se sacrifica tempo, presença e afecto em troca de títulos, números e aplausos. Nas avenidas iluminadas do mundo contemporâneo, o êxito mede-se em cargos, patrimónios, seguidores e distinções. Aprendemos cedo a desejar o brilho do reconhecimento, como se nele residisse a prova definitiva de que a nossa vida valeu a pena. Também eu, em tempos, me deixei seduzir por essa promessa. Recordo-me de caminhar apressada, com a agenda cheia e o telemóvel sempre a vibrar, como se cada notificação fosse uma confirmação da minha importância. Dizia a mim mesma que estava a construir o futuro, a assegurar estabilidade, a preparar dias mais tranquilos para os que amava. Convencia-me de que a ausência era provisória, de que o cansaço era um investimento, de que as noites tardias eram um gesto de responsabilidade. Mas há silêncios que falam mais alto do que qualquer aplauso. Há um momento — discreto, quase imperce...