"Persona"
Olá. Há um talento que, admito, exige prática: esse de chegar leve, sorrir como quem não deve nada a ninguém e revestir cada frase com diminutivos e uma doçura quase infantil — uma espécie de açúcar performativo que tenta convencer que ali existe cuidado. Só que não há. Há cálculo. Há intenção. Há um verniz demasiado fino a tentar esconder uma matéria que não suporta luz direta. E é curioso como quase resulta. Quase — porque a incoerência tem uma forma muito própria de se infiltrar. Não grita, não se impõe, mas escapa. Num olhar ligeiramente deslocado, numa pausa milimetricamente fora do tempo, num gesto que não acompanha a narrativa. O corpo não mente com a mesma disciplina com que a boca ensaia. E é aí que tudo se denuncia. Eu vejo. Não por esforço — por evidência. Eu ouço. Não por atenção redobrada — por padrão repetido. Essa simpatia que apresentas não é empatia. É estratégia social. É uma forma elegante de intervir sem assumir o impacto. Dizes sem dizer, feres sem tocar...