Mensagens

"Tempestade"

 Há dores que não chegam devagar. Entram na nossa vida como uma tempestade que rebenta portas, derruba estruturas e deixa tudo irreconhecível. E o mais assustador nem é aquilo que levam — é aquilo em que nos transformam enquanto tentamos sobreviver a elas. Existe um momento muito perigoso no sofrimento humano: o instante em que a dor deixa de parecer uma fase… e começa a parecer identidade. Quando acordas e ela já está lá. Quando adormeces e ela continua. Quando os dias deixam de ter sabor, urgência, brilho ou direção. E então começas lentamente a acreditar numa mentira profundamente cruel: a ideia de que a dor é a verdade definitiva da vida. Mas não é. A dor é real. Terrivelmente real. Ela instala-se sem pedir licença. Ocupa os pensamentos. Rouba o sono. Altera a forma como olhas para ti, para os outros, para o mundo. Há dores que cansam mais do que trabalho físico. Porque não se carregam nos braços — carregam-se na alma. E é por isso que às vezes frases bonitas n...

"Pensar?"

 Por norma, a esta hora já estou a dormir. Hoje foi exceção. O dia começou como começam quase todos os dias das pessoas adultas que vivem em modo maratona permanente: acordar cedo, trabalho, responsabilidades, horários apertados e a eterna sensação de que o relógio anda sempre dois passos à nossa frente. Fui trabalhar. Tenho a sorte rara de trabalhar com uma patroa extraordinária — humana, compreensiva, inteligente. E isso hoje em dia vale mais do que muitos ordenados emocionalmente miseráveis. Saí do trabalho e começou a segunda jornada. Almoço com a família. Depois um velório. Mais trabalho. Uma festa de aniversário generosamente regada, porque há ambientes que só se suportam bem com hidratação alcoólica adequada.  E, para terminar o dia, escola da fé. A vida adulta é isto: num espaço de poucas horas tanto podes estar a refletir sobre a eternidade num velório como a cantar parabéns desafinados enquanto alguém abre espumante demasiado perto do bolo. Mas o momento ...

"Quem diria!?"

 Em 2023 nunca me passou pela cabeça que esta mulher se ia tornar uma das pessoas mais importantes da minha vida. Na altura, achei-a insuportável.  Daquelas pessoas excessivamente persistentes, sempre muito certas de si, com uma confiança que eu confundia com presunção. Eu olhava para ela e pensava: “Mas quem é esta criatura tão intensa?” Só que ela teve uma coisa rara: paciência. Não entrou na minha vida de rompante. Foi chegando devagarinho. Com mensagens. Com chamadas. Com aquela insistência suave de quem percebe que as amizades verdadeiras não se invadem — conquistam-se. E hoje é ridículo pensar nisso, porque atualmente, se ela passa um dia sem me ligar, sou eu que começo imediatamente a achar que morreu, foi sequestrada ou entrou num retiro espiritual sem rede.  São horas infinitas ao telefone. Conversas profundas sobre a vida, traumas, relações, medos existenciais… e dez minutos depois estamos a rir porque uma de nós se engasgou com água enquanto dizia “cha...

“Juventude em manutenção”

 Sabemos que estamos oficialmente a entrar naquela fase delicada da vida chamada “juventude em manutenção” quando vamos para os Passadiços do Paiva com entusiasmo de influencer fitness… e ao fim de dez escadas já estamos a reconsiderar todas as decisões que nos trouxeram ali.  Fui com a minha amiga. A amiga das energias. Dos cristais. Dos incensos. A mulher que acredita genuinamente que uma pedra retirada do interior da Terra consegue equilibrar chakras, afastar más vibrações e abrir caminhos espirituais… mas que nem com três ametistas e um quartzo rosa conseguiu abrir os pulmões naquela subida.  Ela aparece sempre preparada para tudo. Mochila minimalista. Água alcalina. Cristal “para proteção energética”. Spray de lavanda “para ansiedade”. Parecia pronta para uma peregrinação espiritual no Tibete. Coitada. Nem sabia que ia apenas subir escadas até entrar em contacto direto com Jesus Cristo.  E lá fomos nós. Todas felizes. Outfit pensado ao detalhe como duas ...

"Explicação"

 Como alguns já repararam, ultimamente não publico os textos de imediato. E há até alguns que nunca chegam aqui. Os motivos pertencem-me e permanecem no espaço reservado das coisas que nem sempre precisam de explicação pública. Talvez escrever também seja isto: escolher o que se revela e o que se protege. Ainda assim, os textos que aqui chegam vêm sempre na sua melhor versão. São os mais depurados, os mais sentidos, os mais próximos daquilo que realmente quero deixar dito. Porque certas palavras exigem tempo antes de encontrarem o lugar certo onde existir. Nos últimos tempos, tenho partilhado mais no meu Facebook e no meu WordPress. São espaços mais privados, mais silenciosos, onde posso escrever com outro ritmo, ilustrar com fotografias, explorar outros temas e permitir que os textos respirem de forma diferente. Há uma intimidade particular nesses lugares — uma liberdade mais serena, menos sujeita ao ruído imediato. Contudo, os textos que têm maior aceitação acabam, mais tarde, po...

"Como Reconhecer um Estúpido"

 Como Reconhecer um Estúpido (num Mundo Cheio Deles), de Robert Musil, é muito mais do que um pequeno ensaio sobre comportamentos irritantes do quotidiano. Apesar do título parecer quase humorístico ou provocador, o livro apresenta uma reflexão séria, filosófica e até desconfortável sobre um tema que quase toda a gente acredita compreender facilmente: a estupidez humana. Musil parte de uma ideia fundamental e surpreendente: a estupidez não é simplesmente falta de inteligência. Pelo contrário, muitas vezes manifesta-se precisamente em pessoas instruídas, cultas, bem posicionadas socialmente e até admiradas pelos outros. O autor desmonta a ideia simplista de que o “estúpido” é apenas alguém ignorante ou com pouca formação. Para ele, essa é apenas a forma mais visível e menos perigosa do problema. Ao longo da obra, distingue essencialmente dois tipos de estupidez. A primeira é a estupidez simples, mais próxima da ingenuidade ou da limitação natural de conhecimento. Esta pode até despe...

"Bode expiatório"

 Há quem diga que a memória é um refúgio; no meu caso, é também um arquivo implacável. Não esquece, não suaviza, não negocia com o tempo. Recorda com a nitidez de quem sabe que a verdade, mesmo quando distorcida pelos outros, deixa sempre vestígios — e eu aprendi a lê-los. Fui, em momentos distintos, aquilo a que chamam bode expiatório. Não por vocação, mas por conveniência alheia. É sempre mais fácil concentrar a culpa numa só pessoa do que distribuí-la pela complexidade dos factos. Há uma espécie de economia moral nisso: simplifica-se o erro, purifica-se o grupo, sacrifica-se o indivíduo. E assim se constrói uma narrativa confortável, onde a verdade é menos importante do que a estabilidade das aparências. Eu conheço bem esse mecanismo — não o estudei apenas, vivi-o. Senti o peso silencioso de carregar culpas que não eram minhas, e o mais subtil ainda: a expectativa de que o fizesse com discrição, quase com gratidão. Mas se o bode expiatório é o corpo que absorve a culpa, o gasl...

"Etapas"

 Há frases que não se limitam a ser lidas — desinstalam. Instalam-se num lugar mais profundo do que o pensamento imediato, obrigam a uma pausa que não é confortável e revelam, com uma clareza quase implacável, aquilo que tantas vezes preferimos manter difuso. Quando li que “a sociedade é apenas pecadores a julgar outros pecadores por pecarem de forma diferente”, não encontrei apenas uma ideia provocadora — encontrei um espelho. E os espelhos, quando são verdadeiros, não suavizam. Vivemos numa cultura onde o julgamento se tornou quase uma linguagem comum. Opina-se com facilidade, avalia-se com rapidez, condena-se com uma convicção que raramente é acompanhada por introspecção. Há sempre uma análise pronta sobre o erro do outro, sobre a escolha que falhou, sobre o comportamento que não corresponde ao que se considera aceitável. Mas essa prontidão levanta uma questão inevitável: Com que legitimidade julgamos? Não no plano moral abstracto, mas no plano humano concreto. Porque, se formos...

"Palavras "

 Há palavras que passam por nós como luz sobre água — tocam, brilham por um instante e dissipam-se sem deixar rasto. Outras, porém, entram como lâmina fina, silenciosa, e permanecem. Não porque sejam mais verdadeiras, mas porque encontram em nós um terreno antigo, preparado ao longo de milénios para reconhecer o perigo antes de acolher a beleza. O cérebro humano não é neutro; é vigilante. Foi moldado num tempo em que sobreviver dependia menos da celebração do que da antecipação da ameaça. Nesse contexto, o elogio nunca foi urgente — mas o insulto, a crítica, o sinal de rejeição, esses podiam significar exclusão, risco, vulnerabilidade. E o que era risco precisava de ser lembrado. Assim se construiu esta assimetria silenciosa: o negativo fixa-se, o positivo escorre. Uma palavra dura não é apenas ouvida — é registada, analisada, arquivada com um cuidado quase obsessivo. Ativa zonas profundas, emocionais, instintivas, como se ainda estivéssemos à mercê de perigos invisíveis. Já o e...

"Onde começa"

 Há hábitos que entram na nossa vida como uma brisa quase imperceptível — não pedem licença, não fazem ruído, não deixam marcas imediatas. Instalam-se como quem pousa um copo numa mesa alheia, com uma naturalidade desarmante. No início, nada parece digno de alarme: um desvio mínimo, uma cedência subtil, uma escolha que se justifica com a leveza do “não tem importância”. E, de facto, naquele instante, talvez não tenha. Mas imagina agora que a tua vida é uma casa em construção contínua. Todos os dias levantas paredes, escolhes materiais, defines estruturas. Há decisões que são vigas mestras, pesadas e visíveis — ninguém ignora a sua importância. Porém, há outras, quase invisíveis, que se escondem nos interstícios: pequenas fissuras, desalinhamentos discretos, imperfeições aparentemente irrelevantes no reboco. No primeiro dia, a fissura é apenas um traço fino, quase decorativo. Passas por ela e pensas: “Depois trato disto.” No segundo dia, já nem reparas. No terceiro, começas a ada...