"Onde começa"
Há hábitos que entram na nossa vida como uma brisa quase imperceptível — não pedem licença, não fazem ruído, não deixam marcas imediatas. Instalam-se como quem pousa um copo numa mesa alheia, com uma naturalidade desarmante. No início, nada parece digno de alarme: um desvio mínimo, uma cedência subtil, uma escolha que se justifica com a leveza do “não tem importância”. E, de facto, naquele instante, talvez não tenha. Mas imagina agora que a tua vida é uma casa em construção contínua. Todos os dias levantas paredes, escolhes materiais, defines estruturas. Há decisões que são vigas mestras, pesadas e visíveis — ninguém ignora a sua importância. Porém, há outras, quase invisíveis, que se escondem nos interstícios: pequenas fissuras, desalinhamentos discretos, imperfeições aparentemente irrelevantes no reboco. No primeiro dia, a fissura é apenas um traço fino, quase decorativo. Passas por ela e pensas: “Depois trato disto.” No segundo dia, já nem reparas. No terceiro, começas a ada...