"Não esperes. A vida não avisa"

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Não esperes.
A vida nunca te prometeu uma segunda chamada.
Nunca garantiu repetição, nem ensaio geral, nem devoluções.
E, ainda assim, vives como se tivesses uma reserva infinita de manhãs guardadas numa gaveta qualquer, à espera do “momento certo”.

Mas o momento certo não existe.
Existe apenas o agora — imperfeito, desconfortável, incompleto — e mesmo assim irrepetível.

Não esperes ter mais dinheiro, mais tempo, mais segurança.
O tempo não aceita prestações.
Não negocia.
Não suspende juros emocionais.
Quando te aperceberes, já terás hipotecado anos inteiros de vida em nome de um futuro que nunca chegou a ser teu.

Não esperes pela sexta-feira para respirar.
Se a tua semana é uma prisão, o sábado não te vai salvar.
Descanso não é prémio por sobrevivência.
É direito de quem está vivo.
E quem liberta a tua vida não é o calendário — és tu, quando decides não adiar mais a tua própria dignidade.

Não esperes estar pronta.
Não esperes estar curada, iluminada, resolvida, perfeita.
A perfeição é uma miragem cruel: promete água enquanto te deixa morrer de sede.
Se esperares por ela, vais passar a vida inteira parado à beira do caminho.

Não esperes que a coragem chegue educada, com flores na mão e garantias no bolso.
A coragem não avisa.
Não pede licença.
É aquele desconforto persistente que te encosta à parede e sussurra:
vai assim mesmo.
Com medo.
Com dúvidas.
Com o coração a tremer.

Não esperes que a vida abrande.
Ela não vai.
A vida não é delicada.
Não é previsível.
Não pergunta se estás pronta antes de virar tudo do avesso.
E, ainda assim — olha que ironia brutal — ela espera que tu vivas.

Vivas de verdade.

Agora.
Com o pouco que tens.
Com o muito que sentes.
Com o que está partido.
Com o que ainda dói.
Com o que ainda não encontrou forma nem nome.

Vive antes que o relógio perceba que te estás a esconder.
Vive antes que a rotina te engula inteira, sem deixar rasto.
Vive antes que os teus sonhos se transformem em ossos enterrados no quintal das desculpas que contas a ti mesma para sobreviver.

Porque a verdade é simples, dura e impossível de contornar:

Quem espera, adapta-se.
Quem se adapta, anestesia-se.
E quem se anestesia… desaparece aos poucos, sem fazer barulho.

E tu não nasceste para desaparecer.
Nasceste para sentir.
Para escolher.
Para errar.
Para amar.
Para existir com intensidade, mesmo sabendo que tudo é frágil.

Não esperes.
A vida já está a acontecer.

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