"Esclarecimento, para ti, que procuras"
Mas mesmo sem saberes quem eu sou — e nunca soubeste — continuas a querer que eu volte a percorrer o mesmo caminho.
O mesmo trilho desgastado onde a minha alma já não cabe, onde os meus passos já não pertencem.
Não vou.
A vida ensinou-me, com insistência e misericórdia, a reconhecer os ciclos que tentam aprisionar, as repetições que nos desviam da nossa verdade.
E por mais que puxes, por mais que tentes reescrever a minha memória, eu não retorno a lugares onde já aprendi o suficiente.
São Bento disse-o com a serenidade de quem conhece o peso das escolhas:
“Não bebo desse veneno.”
Bebe tu, se assim o desejares.
Eu, não.
Eu escolho a lucidez.
Eu escolho a paz.
Eu escolho a dignidade silenciosa que não precisa de gritar para existir.
Eu escolho a firmeza de quem já entendeu que não deve morrer por dentro para caber na visão limitada de ninguém.
Entende uma verdade que teima em escapar-te: eu não perdi nada.
Só se perde aquilo que é verdadeiramente nosso, aquilo que existe, que se sente, que tem raízes fundas no coração.
E aquilo que é nosso — realmente nosso — não se abandona num dia, nem desaparece num instante, nem se apaga por conveniência.
Quando se gosta verdadeiramente, protege-se, cuida-se, escuta-se.
Onde há verdade, há presença.
Onde há amor, há responsabilidade emocional.
Eu encontrei isso — dentro de mim e naqueles que caminham ao meu lado com respeito e verdade.
E só tu continuas a acreditar que atitudes mesquinhas,
gestos pequenos,
sussurros lançados na sombra,
vão fazer com que eu me encolha na tua narrativa.
Não vou.
A tua retórica não me veste,
não me define,
não me molda.
Eu sou maior do que o teu discurso,
mais profunda do que os teus julgamentos,
mais livre do que as tuas conclusões apressadas.
Ninguém tem de viver preso a sentimentos negativos.
Ninguém tem de se amarrar ao rancor para justificar a própria dor.
Limpa o teu coração, se quiseres encontrar a felicidade que procuras.
E esquece que algum dia acreditaste conhecer-me — ou que tiveste um vislumbre do que é cuidado, respeito, carinho, compaixão, generosidade, admiração.
Sim, talvez tenha sido isso que te inquietou:
o reflexo de bondade e verdade que viste em mim e não soubeste acolher.
Talvez por isso mantenhas esse impulso de fazer mal,
de afastar outros de mim,
de tentar apagar aquilo que um dia te tocou.
Mas a verdade permanece: falhaste redondamente.
E não digo isto com arrogância — digo com tristeza serena.
Porque o que viste era autenticidade, e a autenticidade não se destrói.
Não se apaga.
Não se desvia do seu caminho.
E por isso, eu não vou falar de ti.
Não vou andar atrás de ti. Como dizes!
Não vou perguntar por ti. Como acreditas!
Não vou procurar saber de ti. Como espalhas!
Não por ressentimento — mas por respeito a mim mesma e, paradoxalmente, a ti, sim a ti.
Porque apesar de tudo,
apesar da tua incompreensão,
apesar da tua sombra,
eu respeito-te e rezo por ti.
Rezo para que encontres luz.
Rezo para que deixes ir o que te corrói.
Rezo para que descubras a paz que tanto procuras fora,
quando o que te falta está, desde sempre, dentro.
Eu sigo o meu caminho — inteira, consciente, forte.
E tu, um dia, talvez compreendas que nada do que fizeste me quebrou.
Pelo contrário: refinou-me.
A dor lapidou-me.
A verdade libertou-me.
A experiência fortaleceu-me.
E agora, finalmente, estou no caminho para ser exatamente quem devia ser.
Tu também podes ser quem um dia eu vi. Faz tu consegues, sê mais generosa contigo.
Tens tudo o que precisas dentro de ti. Que Deus te abençoe sempre.
Comentários
Enviar um comentário