"Lamento"
A morte é inevitável. Não é ameaça, nem castigo, nem justiça divina. É parte da mesma vida que tantas vezes celebramos. Eu trabalho com a morte — e quem me conhece sabe-o. Vêem-me muitas vezes com um silêncio profissional, com uma distância necessária, com uma serenidade aprendida à força. Dizem, em comparação, que sou um abutre. Que seja. Já nem respondo. Quem não conhece o peso não compreende o voo.
Mas hoje foi diferente. Hoje a teoria estalou por dentro. Hoje não foi apenas mais uma sala arrumada, mais um espaço preparado, mais um ritual que repito com respeito quase sagrado. Hoje a morte tinha nome, rosto, história, cheiro a infância. Hoje arrumei um espaço para receber alguém que fez parte do meu caminho desde sempre — e não foi como um abutre que me senti. Foi como um coração aberto a rasgar-se em silêncio.
Há dores que não se profissionalizam. Há perdas que atravessam qualquer defesa que construímos para sobreviver ao que vemos diariamente. Tudo muda quando sabemos quem vem. Tudo muda quando não é “um corpo”, “um serviço”, “um processo”, mas uma parte do teu passado que se despede para sempre. Sabes quem foi, quem amou, quem riu, quem tropeçou, quem sonhou. Sabes a história — e a história pesa.
E agora… como vai ser?
Não há resposta. E talvez nunca haja.
Amanhã estarei presente para dar os sentimentos à melhor pessoa que conheço. Um exemplo vivo de dignidade, de força, de humanidade. E sei, com uma clareza que me corta, que não existe frase que possa curar o que ela sente. Não existe palavra certa, nem fórmula mágica, nem gesto perfeito. Não posso tirar-lhe a dor. E dói. Dói muito, porque sei o que é abrir mão de quem amamos sem termos escolhido isso. Sei o que é a alma ficar a arder por dentro enquanto o mundo continua como se nada tivesse acontecido.
Há um momento na perda em que a realidade se impõe com uma brutalidade silenciosa: nunca mais seremos os mesmos. Não se trata de dramatizar — trata-se de reconhecer que o amor não sai ileso da ausência. O amor transforma-se. Fica-nos no corpo como cicatriz invisível. Vamos reaprendendo a respirar, mas nunca mais respiramos da mesma forma.
Trabalhar com a morte ensinou-me muitas coisas — e desaprendeu-me outras. Ensinou-me que a vida é frágil, que o tempo mente quando parece muito, que a rotina é luxo, que o abraço é urgente. Ensinou-me também a humildade: não somos donos de nada, nem de ninguém, nem sequer das nossas próprias garantias. Cada despedida lembra-me que passamos por esta vida como quem passa por uma casa emprestada — com gratidão, com cuidado, com a consciência de que um dia teremos de partir.
Mas o que mais aprendi — e hoje senti com uma força quase insuportável — foi a importância do amor fraterno, da amizade silenciosa, da empatia que não precisa de palavras. É ficar ao lado. É segurar uma mão. É ouvir o silêncio. É respeitar o tempo do outro sem tentar apressar-lhe o luto. É ter paciência para as lágrimas, compreensão para a raiva, espaço para o desabafo, ternura para as memórias repetidas.
Hoje senti um nó na garganta que não se desfaz com lógica. Senti a verdade crua: a morte dói porque a vida foi grande. Chora-se muito não porque somos fracos, mas porque amámos muito. O choro é a última linguagem do amor quando as palavras já não chegam.
E no meio de tanta dor, há também algo profundamente humano que se revela: a capacidade de estar, de cuidar, de amar mesmo quando nada podemos resolver. Há honestidade no abraço que não promete curas, há sinceridade no “não sei o que dizer”, há altruísmo em permanecer quando o sofrimento do outro nos assusta. É aí que se vê a verdadeira companhia: não em quem fala muito, mas em quem não foge.
Sim, há quem faça piadas, julgamentos, comparações cruéis. Há quem chame “abutre” a quem trabalha com a morte porque não suporta encará-la. Mas eu sei o que faço. Sei com quanto respeito preparo cada partida. Sei que, ao arrumar uma sala, não arrumo apenas um espaço — preparo um último encontro, um derradeiro adeus, uma ponte feita de flores, silêncio e lágrimas contidas.
Hoje doeu mais. Hoje a profissional deu lugar ao ser humano. Hoje a infância entrou pela porta da sala e sentou-se ao meu lado. E eu, com toda a humildade, com todo o companheirismo possível, com toda a humanidade que consigo reunir, digo apenas isto:
honremos os vivos, cuidemos dos que ficam, abracemos mais, julguemos menos, amemos com verdade — porque um dia, sem aviso, chega a última oportunidade.
E quando esse dia chega, o que permanece não são as máscaras, nem os orgulhos, nem as vaidades.
O que fica é aquilo que fomos na vida dos outros:
o bem que fizemos, o amor que demos, a forma como tocámos alguém sem pedir nada em troca.
A morte é inevitável — mas a forma como vivemos até lá é escolha.
E que a nossa escolha seja sempre esta: humanidade.
Esta pessoa partiu. E com a partida dele, fica no mundo alguém por quem tenho uma admiração profunda: a mulher dele. Ela é, para mim, um exemplo vivo — daqueles que não precisam de discursos bonitos para se fazer notar. A sua força não é exibida, é sentida. A sua coragem não grita, sustenta. A sua presença não se impõe, acolhe.
Ela é uma amizade importante, rara, ímpar. Daquelas que não se encontram por acaso e não se esquecem com o tempo. Genuína, autêntica, guerreira — não pelas batalhas que conta, mas pela forma silenciosa como as atravessa. Ela é honesta mesmo quando a verdade dói, é altruísta mesmo quando também precisa, é íntegra mesmo quando o mundo tenta corromper.
Hoje penso nela e no que está a viver… e o coração aperta. Porque sei que nenhuma palavra minha consegue devolver o que se perdeu. Sei que nenhum gesto apaga o vazio que agora ocupa a casa, a rotina, o peito. Sei que há noites que não têm fim, horas que parecem não passar, e perguntas que ecoam sem resposta.
Mas sei também o tamanho da mulher que ela é. Sei da dignidade com que enfrenta a dor, do amor com que cuidou, da forma inteira como esteve presente até ao último capítulo. Sei que, mesmo ferida, não perdeu a doçura. Mesmo cansada, não perdeu a fé. Mesmo num momento que desfaz, continua a ser porto seguro para muitos.
Ela está no meu coração — e ficará. E irei onde ela me chamar, nem que seja apenas para ficar sentada ao lado dela, em silêncio. Não prometo soluções, prometo presença. Não prometo que a dor passe, prometo que não a deixo carregá-la sozinha. Tudo o que precisar, estarei disponível. Estarei presente. Estarei inteira.
Segurarei na sua mão — quando tremer, quando falhar a força, quando as palavras não saírem e o choro falar por ela. Segurarei na sua mão quando for preciso rir sem culpa, lembrar sem desespero, reconstruir sem se trair. Segurarei na sua mão quando o mundo lhe parecer grande demais e o chão lhe fugir dos pés.
Porque o amor não termina com a morte — transforma-se.
E a amizade verdadeira não aparece só nos dias fáceis — revela-se nos dias que nos rasgam.
Ela segue como exemplo para mim:
de coragem sem dureza,
de fé sem fanatismo,
de dor sem amargura,
de amor sem medida.
E eu estarei aqui — com respeito, com carinho, com verdade — para caminhar ao lado dela no tempo que for preciso.
Não para substituir o que se perdeu.
Mas para lembrar, com a vida que continua, que ninguém precisa atravessar a escuridão sozinho.
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