"Incrível"
Há um momento muito específico na vida adulta em que deixamos de acreditar que as séries de humor exageram. É um instante subtil, quase imperceptível, em que o cérebro abandona a incredulidade e aceita, com um suspiro cansado, que a realidade não só alcançou a ficção como a ultrapassou em velocidade terminal. Esse momento aconteceu-me durante um almoço.
Um almoço perfeitamente normal. Casais sentados. Conversa educada. Talheres a cumprir a sua função. Nada fazia prever que, em breve, estaríamos todos a assistir à apresentação informal de um sistema conjugal parametrizado, desenhado por duas mentes que claramente nunca confiaram no acaso.
Conheci então o casal. Ele, físico. Ela, biofísica. Isto não é um detalhe biográfico — é uma advertência. Pessoas assim não “vivem juntas”. Co-habitam em regime experimental. O amor, para eles, não é uma emoção. É uma variável dependente.
A conversa evoluía de forma relativamente estável até que, talvez movidos por um excesso de transparência científica ou por uma falha no filtro social, decidiram partilhar o seu acordo de matrimónio. Não um pacto simbólico. Um contrato. Presumivelmente escrito. Provavelmente com anexos.
Começaram por explicar que o casamento, enquanto estrutura social, é altamente propenso a entropia. Logo, para minimizar o caos, impunham-se protocolos rigorosos de funcionamento doméstico. Até aqui, todos acenavam. Afinal, quem nunca fez uma lista?
Mas rapidamente ficou claro que isto não era uma lista. Era uma norma operacional padrão.
O primeiro tópico incidia sobre a indumentária masculina em ambiente doméstico. Ficou formalmente estabelecido que o elemento masculino não poderia circular pelo espaço comum usando boxers, cuecas fio dental, ou qualquer vestuário que permitisse a observação directa, indirecta ou conjectural da estrutura genital externa, cuja dimensão foi descrita — com um à-vontade quase cruel — como “estatisticamente insignificante”.
Não “pequena”. Não “modesta”. Estatisticamente insignificante.
Foi neste exacto momento que perdi qualquer esperança de manter a compostura. Ri-me. Uma gargalhada franca, sonora, impossível de conter. Não por desrespeito, mas porque o meu sistema nervoso recusou aceitar aquela frase como algo que podia existir fora de um guião.
Eles prosseguiram, imunes.
Seguiu-se a secção dedicada às funções fisiológicas básicas. Ir à casa de banho não era um acto espontâneo. Era um fenómeno previsível, sujeito a análise. Falava-se em intervalos temporais de micção programada e janelas de evacuação intestinal optimizada. O objectivo era evitar interferências cruzadas, perturbações emocionais e — Deus nos livre — encontros inesperados no corredor.
A defecação, segundo percebi, era tratada como um evento de baixa variabilidade, condicionado pela ingestão alimentar e monitorizado de forma tácita. Nada de improvisos. Nada de urgências dramáticas. O corpo devia colaborar com o calendário.
Dormir era outro capítulo digno de estudo. Dormiam juntos, sim — mas apenas no sentido topográfico. O repouso nocturno era classificado como fase de suspensão de interacção íntima não funcional. O toque era desaconselhado. Abraços espontâneos não estavam previstos. Cada corpo ocupava o seu espaço térmico e emocional, respeitando limites claros para evitar transferências afectivas indesejadas durante o sono REM.
Dormir, ali, não era intimidade. Era manutenção.
E então chegámos ao ponto alto. O clímax conceptual. A joia da coroa metodológica: o coito.
Nunca ouvi a palavra ser usada com tanta serenidade, tão despida de qualquer resíduo emocional. O coito era um evento calendarizado, com dia e hora definidos, frequência mensal fixa. Uma vez por mês. Não por tradição. Não por desejo. Por equilíbrio sistémico.
Frequências superiores poderiam gerar instabilidade emocional, apego excessivo ou — o horror — expectativas. Frequências inferiores poderiam comprometer a viabilidade a longo prazo da parceria. Uma vez por mês era, segundo eles, o ponto óptimo entre funcionalidade e risco.
Nada de espontaneidade. Nada de “logo se vê”. Presumo que o evento fosse precedido por aviso prévio, talvez um lembrete digital, e realizado num intervalo compatível com os ritmos circadianos de ambos. Início e fim claramente definidos. Provavelmente com uma duração média aceitável, avaliada ao longo do tempo para possíveis ajustes.
Não se falou de prazer. Falou-se de interligação coital funcional.
Enquanto ouvia tudo isto, tive a estranha sensação de estar presente numa apresentação preliminar de um estudo longitudinal sobre como retirar toda a poesia da experiência humana sem provocar extinção imediata da espécie. Era fascinante. Era aterrador. Era, admito, brilhante.
Os outros casais mantinham um silêncio reverente. Ninguém ousava fazer perguntas. Porque quando duas pessoas com formação científica descrevem a sua vida conjugal como um sistema fechado com variáveis controladas, qualquer tentativa de comentário parece amadora.
Saí daquele almoço com uma certeza absoluta:
há quem viva o amor,
há quem o sofra,
e há quem o regule com tabelas.
E talvez o verdadeiro humor disto tudo seja este: enquanto muitos passam a vida a tentar compreender as relações humanas, este casal resolveu simplesmente neutralizá-las.
Com sucesso estatístico.
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