"Tempo de reflexão"
Há expressões que se repetem com uma facilidade quase automática, como fórmulas herdadas que poucos se detêm verdadeiramente a examinar. “Estamos em tempo de reflexão”, dizem. E eu interrogo-me — não por ceticismo, mas por exigência —: o que define esse tempo? Quem o delimita? Será a sucessão das datas, a marcação litúrgica, o consenso social? Ou será algo infinitamente mais íntimo, mais rigoroso, mais exigente — uma disposição interior que não se submete ao calendário, mas à verdade? Confesso que sempre senti uma certa inquietação perante essa ideia de uma reflexão sazonal, quase episódica. Como se a consciência pudesse ser convocada por decreto, como se o exame interior tivesse um início e um fim definidos externamente. Para mim, enquanto mulher pensante, a reflexão nunca foi um acontecimento pontual; foi, desde cedo, uma necessidade estrutural, quase orgânica. Uma forma de habitar o tempo com lucidez. Todos os dias — e sublinho: todos os dias — há um momento em que paro. Não ...