"Este ano"
O ano de 2025 inscreveu-se na minha vida como um tratado de experiências humanas, um compêndio de alegrias e cansaços, de fé e interrogação, de quotidiano e transcendência. Não foi apenas uma sucessão de meses; foi uma arquitectura de sentidos, onde cada gesto se converteu em matéria de pensamento e cada dia, por mais banal que parecesse, me convocou para uma leitura mais exigente de mim própria e do mundo.
Janeiro abriu-se como um limiar simbólico. Nele, a luz do aniversário da minha filha elevou-se à categoria de epifania doméstica: o “melhor de sempre”, porque cada ano seu acrescenta ao meu ser uma camada de ternura e responsabilidade. Entre reuniões para o crisma e encontros preparatórios para a peregrinação a Fátima, teceu-se um denso tecido espiritual, simultaneamente prático e contemplativo. O trabalho reclamou-me com a firmeza do inevitável e eu respondi, enquanto as caminhadas até à escola primária se transformavam em pequenos rituais de entrega, quase procissões íntimas. As mensagens, telefonemas e emails chegavam incessantes: alguns traziam ânimo e reconhecimento; muitos outros, impregnados de desvalorização e aspereza, exigiram de mim a maturidade silenciosa de quem aprende a não se reduzir ao olhar alheio. O voluntariado, entretanto, constituiu-se como espaço ético e afectivo, onde o servir se confundiu com a possibilidade de reconstruir interiormente aquilo que por vezes o mundo tenta fragmentar.
Fevereiro prosseguiu este movimento circular de acção e reflexão. As reuniões continuaram, o trabalho intensificou-se, as caminhadas persistiram, mas neles não havia mera repetição: havia aprofundamento. Os jantares com amigos, o convívio em família, as conversas que se prolongam para além das palavras, tornaram-se exercícios de pertença. A escola que trago no coração — mais que instituição, verdadeira comunidade afectiva e intelectual — permaneceu presença fundadora.
Março e Abril repetiram o ritmo, mas a repetição, longe de ser monotonia, foi cadência formativa. O voluntariado converteu-se em laboratório de humanidade, exigindo discrição, paciência e compaixão madura. A rotina, tantas vezes desvalorizada, ensinou-me a beleza da constância e a ética do compromisso.
Maio ergueu-se como ápice simbólico: peregrinação e crisma entrelaçaram corpo e espírito, caminho e promessa. A fé, longe de se reduzir a enunciado, tornou-se movimento — passo após passo, uma reflexão vivida. Junho prolongou esta tonalidade, entre trabalho, família, praia e a festa de finalistas do meu filho, momento liminar entre infância e novos horizontes.
Julho trouxe o meu aniversário: instante de balanço, interrogação e auto-reconhecimento. As férias, as festas, o tempo alargado do descanso ofereceram-me um espaço interior de recolhimento. Agosto acrescentou a celebração do aniversário do meu esposo e a repetição dos gestos familiares revelou-se, afinal, fonte de estabilidade e sentido.
Setembro inaugurou a novidade — uma escola nova — e, com ela, o desafio da adaptação, a abertura a outros modos de aprender e ensinar. Também festejamos o aniversário de uma década do meu caçula. Outubro aprofundou a dimensão da fé em contexto comunitário; novembro e dezembro retomaram o ciclo, provando que a vida se faz de repetições que são sempre diferentes, porque nós já não somos exactamente os mesmos.
Foi um ano pleno: aventuras, festas, jantares, convívios, ciclos que se encerraram e outros que se abriram discretamente, amizades novas e antigas, estudos, formações, amadurecimento interior. O trabalho, a família e a fé constituíram o tripé sobre o qual organizei o meu ser-no-mundo, garantindo-me enraizamento e expansão simultâneos.
Houve desafios — alguns discretos, outros avassaladores — e lições que conscientemente resguardo apenas para mim, não por segredo gratuito, mas porque certas aprendizagens exigem o silêncio como forma de dignidade. São cicatrizes e luzes que compõem a minha identidade mais profunda.
Em retrospetiva, 2025 não se limita a um arquivo de datas: é uma narrativa densa, existencialmente habitada, que me convocou ao crescimento intelectual, emocional e espiritual. Foi um ano monumental na sua exigência, irrepreensível enquanto matéria de reflexão, belo na sua complexa imperfeição humana. Transformou-me, obrigou-me a pensar-me e a reinventar-me, ensinou-me a persistir com delicadeza e a acreditar com lucidez.
Chego ao seu termo mais inteira, mais crítica, mais consciente. E, sobretudo, com a certeza serena de que viver é, antes de tudo, uma arte em permanente elaboração.
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