"Poema da Resistência, do Tempo e do Amor"
Às vezes, para suportar a vida,
visto uma armadura invisível.
De fora, pareço ferro, aço,
um corpo frio de matéria imutável.
Mas dentro de mim,
não há ferro, não há aço:
há uma mulher resistente,
que já chorou lágrimas de fogo,
que já sangrou de emoções,
que já se partiu em fragmentos
e soube transformar os estilhaços em luz.
Atrás da couraça,
existe uma flor que ama e quer ser amada,
que abraça e deseja ser abraçada,
que cuida e clama por cuidado,
que protege e implora proteção.
Não sou frágil.
Não sou forte.
Sou resistente.
Resistente como raiz que atravessa pedra,
como rio que fende a montanha,
como chama que insiste no vento.
E pergunto:
qual foi o dia mais feliz da minha vida?
Em que momento fui inteira, viva, presente?
Se pudesse voltar atrás,
saberia escolher?
Ou deixei passar despercebido
o instante que me tocou para sempre?
A vida é apressada,
corre sem pedir licença.
E nós, tolos viajantes,
esperamos sempre pelo amanhã,
quando o ontem já carrega
tudo aquilo que nos fez sorrir de verdade.
E se hoje fosse o meu último jantar?
Eu sei com quem estaria:
com os meus filhos, com o meu marido,
no jardim onde cresce a raiz da minha existência.
Não mantenho laços por conveniência,
não preciso dessa ilusão.
As minhas palavras finais já as disse mil vezes:
“amo-te, amor, amo-te infinitamente.”
Porque não quero partir deixando silêncios,
prefiro viver multiplicando verdades.
Se adiei conversas,
foi porque só eu estava pronta.
Respeitei o tempo do outro,
não forcei o diálogo,
pois o amor também é isto:
saber esperar sem exigir,
respeitar o ritmo alheio,
acolher até a distância.
Sinto falta de muitas presenças:
algumas partiram para junto do Pai,
outras afastaram-se como rios que mudam de curso,
outras fui eu mesma que deixei partir.
Não nomeá-las seria falsificar a minha história.
Assumo-as todas,
porque em cada uma delas deixei carinho,
e recebi lições que moldaram quem sou.
O tempo… ah, o tempo.
Ligeiro, implacável,
dá sem aviso, retira sem retorno.
E é por isso que não o desperdiço:
abraço o hoje com autenticidade,
com amor, compaixão e verdade.
Sim, a vida é o bom e o mau.
O sorriso e a lágrima.
A sombra e a luz.
O caos e a ordem.
Aprendi que até a dor é um presente oculto:
ela purifica, ensina, transforma.
Só quem se queimou sabe o valor da brisa.
Só quem caiu entende o milagre de se levantar.
Só quem perdeu descobre o segredo de agradecer.
Transformei-me.
Não sou só flor.
Não sou só ferro.
Sou flor dentro do ferro.
Sou ferro que protege a flor.
Sou muralha e jardim.
E é desta alquimia que nasce a minha vida.
Por isso manifesto:
não adies o abraço,
não silencies a palavra,
não economizes o carinho.
Amanhã pode não vir.
Mas se vier, que encontre em ti
o coração gasto de tanto amar.
Eu sou mulher de sombra e de luz,
de caos e de criação.
Abracei a dor, transformei-a em consciência.
Abracei a ausência, transformei-a em gratidão.
Abracei a fragilidade, transformei-a em beleza.
E descobri:
a alegria é coragem,
a ternura é revolução,
o amor é herança eterna.
Se hoje fosse o fim,
eu partiria em paz.
Não porque vivi sem dor,
mas porque vivi sem me negar.
Não porque nunca perdi,
mas porque amei infinitamente.
E se amanhã me for dado,
hei de o viver com a intensidade
de quem sabe que pode ser o último.
Porque no fim, o que permanece
não são vitórias, nem posses,
mas gestos, olhares, abraços,
e as palavras simples que digo sempre:
eu amo-te.
E este é o meu poema,
meu manifesto, minha confissão:
sou feita de luz e sombra,
sou feita de dor e de amor,
sou feita de eternidade em cada instante.
Resistente, inteira, viva —
assim eu sou.
Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).