"Gosto assim."
Eu caminho pelo mundo como quem atravessa uma biblioteca antiga: com passos lentos, mãos recolhidas e a consciência de que cada ser humano é um livro sagrado, escrito com páginas que não me pertencem. Não telefono a quem não é meu amigo — não por indiferença, mas por reconhecer que não se entra em casas cujo chão não conheço. Antes de ligar, pergunto: “Posso?”. Antes de entrar, questiono: “Permites-me?”. Porque a presença não é direito adquirido; é convite.
Sou de escutar com os ouvidos e com a alma. Quando alguém me fala, não preparo respostas enquanto as palavras chegam; deixo que as frases se instalem, que respirem, que revelem o peso e a música que carregam. Às vezes dizem-me, com um sorriso entre o cansaço e a frustração: “Parece que estou num monólogo”. Talvez estejam. Mas um monólogo pode ser, na verdade, um mergulho — e eu não tenho medo de mergulhar no rio do outro, mesmo que, ao chegar à margem, nada precise ser dito.
Aprendi que há perguntas que abrem janelas e outras que arrancam portas. As segundas deixam correntes de ar frio entrar, e eu não quero ser vento que gela. Por isso, escolho calar quando sei que as palavras podem ferir. Não é omissão, é compaixão. O silêncio, quando nutrido de atenção e respeito, pode ser mais eloquente do que mil conselhos.
O coração alheio, para mim, é templo. Templo não se invade. Não se toca no altar sem ser convidado. Não se profana o que é sagrado com a pressa ou a curiosidade. Um relacionamento não se sustenta apenas no encontro de duas almas afins; constrói-se com paciência, com a reparação dos erros, com o compromisso de regressar sempre à mesa do diálogo — e, quando o diálogo não é possível, com a humildade de esperar que seja.
Foge-se, sem drama mas com firmeza, de quem se veste de mistério para evitar a clareza, de quem complica o simples, de quem troca o entendimento por jogos emocionais. Aproxima-se, pelo contrário, de quem sabe bater à porta, de quem escuta para compreender e não para responder, de quem entende que o amor, seja qual for a sua forma, é uma arquitectura diária feita de tijolos de respeito, argamassa de verdade e janelas abertas à compreensão.
E assim, na minha estrada, a paz não é um acaso, mas uma obra: desenhada com linhas rectas de intenção, pintada com a cor suave da delicadeza, erguida com a força silenciosa de quem sabe que amar é, antes de mais, cuidar.
Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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