"Meu caçula."
Há momentos em que a vida se suspende num instante, como se o tempo se deixasse deter pela beleza pura e simples daquilo que temos diante dos olhos. Hoje, ao ver o meu filho mais novo — o meu caçula, o meu amor infinito — deitado sobre a água da piscina, senti esse rasgar de eternidade dentro do peito. O sol brincava sobre a sua pele, espalhando reflexos de prata líquida, e cada respiração dele parecia marcar um compasso secreto no meu coração.
Olho-o e vejo tanto: o menino que nasceu das minhas entranhas, a força que me transformou para sempre, o ser humano que cresce diante de mim com teimosia e com graça, com um fogo que por vezes desafia, mas que, no fundo, é apenas a expressão de uma alma inteira, genuína e sem máscaras. Ele é teimoso, sim, e talvez seja essa teimosia que o protege, que o mantém fiel ao que acredita, que o impede de se dobrar ao que não é verdadeiro. Mas é também empatia: uma generosidade que nasce da sinceridade com que olha os outros. Honestidade que chega a doer, sinceridade que corta como lâmina, respeito que não pede palco mas que está sempre presente, silencioso, profundo.
Naquele flutuar tranquilo, quase em abandono, vejo a confiança que ele tem na vida — mesmo sem saber. A água acolhe-o como o meu colo tantas vezes o fez, e ainda o faz, mesmo quando já não pede. Ele cresce, transforma-se, já não é só criança, mas será para sempre o meu menino, o meu último, o meu derradeiro, o que fecha o círculo e completa o sentido.
Por fora, é lindo, uma beleza que se mostra sem esforço, que não se exibe porque simplesmente é. Por dentro, é ainda mais: é um mundo, um oceano, uma verdade inteira. E quando o observo assim, de olhos fechados, entregue à frescura da piscina e ao calor do verão, sinto uma explosão de sentimentos que não cabem em palavras, mas que mesmo assim tento verter em frases, porque o amor, quando é infinito, pede sempre testemunho.
Ele é o meu orgulho, a minha esperança, a minha reflexão constante sobre o que é educar, amar, deixar partir e ao mesmo tempo querer segurar para sempre. É como se cada instante fosse um prenúncio da saudade futura: saudade dele pequeno, saudade dele assim, suspenso entre a infância e o que ainda está por vir.
O meu filho mais novo é mais do que apenas "meu": é um ser inteiro, autónomo, mas ao mesmo tempo é parte inseparável do que eu sou. Nele revejo a minha coragem e as minhas falhas, os meus sonhos e as minhas batalhas. E ao vê-lo, sinto-me inteira, porque nele também se cumpre o melhor de mim.
Hoje, na água, era só um menino a brincar com o verão. Mas para mim, era o universo inteiro a lembrar-me que sou mãe — e que ser mãe é, ao mesmo tempo, bênção e desafio, amor sem medidas, entrega sem reservas, e sobretudo a consciência arrebatadora de que carrego comigo um pedaço de eternidade no olhar sereno e vivo do meu filho amado.
O meu pequeno. O meu caçula. O meu amor infinito. Ainda hoje me parece impossível compreender como um ser tão pequeno, tão novo, pôde desde cedo mostrar ao mundo a grandeza que o habita. Aos três anos já lia, escrevia, fazia contas de dividir, multiplicar, somar, diminuir… como se a matemática e as letras fossem brinquedos que ele desvendava com uma curiosidade insaciável. E não bastava isso: lia e escrevia em inglês, língua que aprendeu sozinho, sem mestres formais, apenas pela sua sede de descobrir, pela sua inteligência luminosa e pela forma quase mágica como absorve o mundo.
Mas o que mais me comove não é apenas essa mente prodigiosa, esse génio silencioso que floresce nele como se fosse a coisa mais natural do mundo. O que mais me toca, o que me faz estremecer de orgulho e ternura, é a sua capacidade de sentir o que os outros sentem. O meu filho sempre teve essa delicadeza rara, essa antena invisível que o liga às dores e alegrias alheias, essa empatia genuína que não se aprende nos livros nem nas escolas — nasce dentro, e nele nasceu imensa, pura, inteira.
E eu, sua mãe, cresci com ele. Cresço todos os dias. Porque ao vê-lo ser assim — tão intenso, tão sensível, tão verdadeiro — sou obrigada a olhar-me ao espelho, a rever os meus passos, a aprender com a sua simplicidade sábia. O meu filho ensina-me: ensina-me paciência, ensina-me a respeitar o ritmo da vida, ensina-me a acreditar naquilo que não se vê, mas se sente. É ele quem me mostra, sem o saber, que a maternidade é uma escola eterna, onde não sou apenas professora, mas também aprendiz.
E no meio de tudo isto, a minha missão maior é proteger. Proteger o seu riso, proteger o seu coração, proteger a sua liberdade de ser quem é, mesmo quando o mundo tenta moldar e podar. Proteger a sua essência, porque sei que é rara, preciosa, única. E ao protegê-lo, protejo também a parte mais pura de mim, aquela que só existe porque ele existe.
Na piscina, deitado sobre a água, parecia apenas um menino a descansar sob o sol. Mas eu via muito mais: via aquele bebé de outrora que surpreendeu o mundo ao decifrar letras e números, via o menino que sente como se fosse adulto, que compreende as dores que muitos não querem sequer enxergar, via o ser humano extraordinário que me escolheu como mãe.
O meu caçula é o reflexo daquilo que o amor, quando é verdadeiro, consegue criar: alguém que ilumina por dentro e por fora, alguém que me obriga a ser melhor, alguém que me dá razões para acreditar que o futuro pode ser belo. Ele é a minha inspiração, a minha responsabilidade, a minha esperança.
E cada vez que o contemplo, não importa se a brincar, a estudar ou simplesmente a flutuar na água azul, sinto que o meu coração explode numa sinfonia de sentimentos: orgulho, gratidão, ternura, medo de perder, coragem de amar. Ser mãe dele é ter dentro de mim um oceano inteiro.
Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

Comentários
Enviar um comentário