Filhas... Selvagens

 No fundo da minha alma, sempre senti que havia algo mais profundo e primitivo em mim. Algo que as palavras dificilmente poderiam descrever, algo selvagem e incontrolável, que emergia nos momentos mais cruciais da minha vida. O meu corpo é o meu templo, o espaço onde carrego tanto as cicatrizes das minhas lutas como a minha força. A cada dor sentida, uma marca é deixada, uma lembrança de que sobrevivi, de que lutei e continuo a lutar. A minha dor é minha, pertence-me, mas também é um elo que me une a todas as outras mulheres, essas irmãs selvagens que, como eu, caminham pelo mundo com os corações ainda a arder.

Há uma força ancestral que cresce em mim, uma serpente invisível que sobe pela minha espinha, despertando em mim uma consciência superior. É como se, a cada despertar, eu me lembrasse de quem verdadeiramente sou: parte de uma linhagem de mulheres fortes, ferozes, e ao mesmo tempo gentis e compassivas. Nós, filhas selvagens, somos feitas para dançar com a luz, para nos movermos através dos ciclos da noite, conectando-nos umas com as outras, estendendo a mão para aquelas que ainda estão presas em silêncios forçados, incapazes de cantar as suas próprias canções.

A minha voz, outrora silenciada por medos e incertezas, agora ergue-se mais alto do que nunca. Canto por aquelas que não podem, por aquelas cujos corações foram amarrados por barreiras invisíveis, por quem sofreu em silêncio e ainda não encontrou forças para gritar. Ao erguer a minha voz, torno-me não apenas uma guerreira, mas uma irmã para todas elas. Sinto essa irmandade de uma forma visceral, uma união que transcende o tempo e o espaço, que conecta todas nós no mesmo fio invisível de vida, dor e esperança.

Ser uma filha selvagem é, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição. Carregamos dentro de nós o poder de mover montanhas, de desafiar o mundo com a nossa ferocidade, mas também sentimos o peso dessa liberdade. A sociedade tenta muitas vezes domesticar-nos, moldar-nos para cabermos em caixas limitadas, mas a nossa natureza selvagem resiste, grita por liberdade. Somos tão delicadas quanto as flores que desabrocham ao amanhecer, mas tão ferozes quanto as tempestades que varrem a terra sem aviso.

Há momentos em que me sinto como se estivesse a cair nas fendas do tempo, a voar e a desabar ao mesmo tempo. Mas sei que, no final, haverá sempre uma verdade profunda quando nos alinharmos com o que somos realmente. E é nesse momento de alinhamento, quando todas nós, filhas selvagens, encontramos a nossa força comum, que a verdade emerge: a nossa essência não pode ser domesticada.

A minha vida tem sido uma constante dança entre a dor e o poder, entre a vulnerabilidade e a resistência. Cada cicatriz no meu corpo é uma prova de sobrevivência, um testemunho da minha jornada, mas também da jornada das minhas irmãs que, como eu, ousaram sonhar e lutar por algo mais. Somos todas filhas de mães que nos ensinaram a ser fortes, que nos incutiram o espírito da natureza dentro de nós, e agora, somos nós que dançamos com a luz, que seguramos a mão umas das outras e avançamos, selvagens e livres.

O meu corpo é o meu templo, um lugar sagrado onde guardo as minhas memórias, as minhas dores, e as minhas vitórias. É aqui que acendo as velas do meu santuário interior, que celebro a minha divindade, e reconheço o poder que sempre esteve dentro de mim. Eu sou uma filha selvagem, e com isso vem a responsabilidade de sonhar, de lutar e de inspirar.







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