Corro.

 Levanto-me às seis da manhã com o toque suave do despertador, não porque quero, mas porque preciso. O dia não espera por mim, e, antes mesmo que o sol se mostre por completo, já estou de pé, preparada para enfrentar mais uma maratona. Sim, é uma maratona, mas sem medalhas no final. O prémio, se é que assim o posso chamar, está nos pequenos gestos, nas rotinas bem cumpridas, no sorriso do meu filho quando me vê chegar para o buscar à escola, no prazer simples de saber que estou a fazer o que acredito ser o melhor.

Corro. Não porque goste de correr, mas porque a vida assim o exige. Corro pelas tarefas que aguardam por mim em casa: a louça que se acumula na bancada da cozinha, as roupas espalhadas pela sala, os brinquedos que parecem multiplicar-se durante a noite. Há uma cadência nesse caos. É desordenado, mas é meu. E é com isso que me deparo todas as manhãs, já com um olho no relógio, pois o tempo nunca parece suficiente. Corro para preparar o pequeno-almoço, sempre na esperança de que o tempo se estique como uma goma elástica, mas ele nunca o faz. Não tenho superpoderes, embora por vezes me sinta obrigada a fingir que sim.

Entrego meu filho à escola, mas não sem antes partilharmos uns minutos de cumplicidade. Ele não se queixa de acordar cedo. Talvez tenha herdado de mim essa sensação de urgência, essa necessidade de estar sempre em movimento. O mundo está sempre a girar, e nós giramos com ele, sem pausas, sem desculpas. Voltarei para ele à hora do lanche. É um momento nosso, uma pausa que nos permitimos. Corro por isso também — por esses instantes que sei que não voltam. Corro porque ele não tem de ser obrigado a almoçar na escola, porque se ele não quer, quem sou eu para forçar? Sou mãe, mas não sou ditadora. Se algo posso dar-lhe, é o espaço para escolher.

Corro para preparar o almoço. Não sou chef, mas sei que a comida feita em casa tem outro sabor, outra textura — uma fatia de amor que se serve em cada prato. Comemos juntos. Ele fala-me do dia, e por um breve momento, o tempo parece desacelerar, como se me concedesse a graça de saborear aqueles minutos. Mas logo retoma o seu ritmo implacável, e lá vamos nós outra vez, correr para a escola, para o trabalho, para tudo o que exige ser feito. Há sempre mais uma tarefa à espreita, mais um recado que não pode ser adiado.

E depois, há o voluntariado. Outro compromisso que abraço com convicção. Não porque tenha tempo de sobra — seria uma piada dizer isso — mas porque acredito que podemos sempre fazer mais. Posso dar de mim, mesmo que o tempo seja curto, mesmo que o cansaço me pese nos ombros. Voluntariar é um ato de amor que estendo para além da minha casa, da minha família. É uma escolha. E corro para lá também, porque o mundo não para.

À noite, a maratona ainda não acabou. Chegar a casa, tomar banho — porque sim, tomamos banho, mesmo depois de um dia que parece não ter espaço para pausas. E depois, jantamos juntos, porque a mesa é o centro da nossa pequena família. É onde as palavras fluem, onde o silêncio também tem o seu lugar. Não há pressa aqui, porque este é o nosso momento de desacelerar, ainda que por breves instantes.

Mais tarde, após as rotinas cumpridas, há o espaço para a escrita. Escrevo, sim. Não porque tenha tempo, mas porque escrever me faz respirar. Escrevo para mim, para organizar os pensamentos que o dia deixou em desalinho. Escrevo porque é uma forma de existir além das correrias, além das listas intermináveis de afazeres. Escrevo porque, entre o caos e a ordem, entre o cansaço e a satisfação, há sempre algo que merece ser dito, algo que precisa ser expresso. E escrevo neste blogue pessoal, não por obrigação, mas porque é aqui que a minha voz encontra um eco.

Para aqueles que se julgam o centro do universo, para aqueles que acham que o mundo gira em torno das suas próprias necessidades e expectativas, deixo este lembrete: todos corremos, todos lutamos contra o tempo, todos carregamos responsabilidades que não se veem à primeira vista. Não sou exceção. Não sou menos por priorizar o que amo, por correr por aqueles que me importam. E se há algo que aprendi nesta rotina frenética é que, no meio de tantas correrias, o que realmente importa não é a perfeição do planeamento, mas a entrega que colocamos em cada escolha. Eu escolho correr por amor.

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