"Alegrias ."
As alegrias simples, as mais puras, são as que nos tocam de forma profunda, sem que muitas vezes o percebamos de imediato. Elas, tão pequenas e quase invisíveis, vão-se infiltrando na alma, sem alarde, e acabam por se tornar gigantescas, dominando o coração, o espírito, e a mente. Há, de facto, uma beleza subtil em tudo o que não busca o brilho ofuscante, mas antes o calor que aquece lentamente.
Eu, que sempre caminhei em busca de algo maior, que tantas vezes me perdi em labirintos da mente à procura de significados, descobri que é nos gestos simples que reside a verdadeira grandeza. Não é nos discursos eloquentes ou nas façanhas heroicas que a alma encontra repouso, mas na simplicidade da natureza, no silêncio de uma manhã fresca, na ternura de um sorriso. Há algo de extraordinário no comum, algo que escapa ao olhar apressado e que só o coração atento pode verdadeiramente abraçar.
Ao longo da vida, eu, como mulher e como ser pensante, dei por mim a questionar as escolhas, a forma como a sociedade nos impulsiona para a grandiosidade de gestos que impressionam, mas que por vezes não tocam. Seria, porventura, um erro seguir sempre essa ânsia de grandeza? Ou seria a simplicidade, essa que muitas vezes negligenciamos, o verdadeiro segredo para a plenitude?
São Francisco de Assis, esse ser iluminado, compreendeu o que muitos de nós tardamos em entender. Ele viu, com uma clareza extraordinária, que é na humildade, na renúncia ao supérfluo, que reside a verdadeira sabedoria. Eu mesma tento, com todas as minhas forças, seguir esse exemplo, aprender a valorizar o essencial e deixar de lado o que nada mais faz do que sobrecarregar a alma. Não é fácil, confesso. A tentação de querer mais, de acumular, de impressionar, espreita constantemente. Mas a simplicidade, a alegria que dela emana, é um bálsamo raro que poucos conseguem saborear.
No entanto, é preciso cuidado. A simplicidade não é sinónimo de pobreza de espírito. Ela requer uma riqueza interior que poucos possuem ou cultivam. Ela exige um intelecto refinado, uma capacidade de ver para além das aparências, de escutar o murmúrio da vida quando todos procuram o barulho. É nesse silêncio, nesse espaço onde a maioria se perde, que a verdadeira beleza floresce. E eu, que busco constantemente o equilíbrio entre a intelectualidade e a emoção, encontro na simplicidade um campo fértil para essa busca interminável.
Afinal, o que é a vida senão uma sucessão de momentos simples, que, se vividos com intensidade e consciência, tornam-se os maiores tesouros que podemos colecionar?