Complexidade.
A vida, em sua complexidade intrínseca, tem a peculiar capacidade de nos conduzir, muitas vezes, por caminhos de autoengano e cegueira emocional. Há momentos em que nos deparamos com as verdades escondidas nas entrelinhas do passado, e é nesse confronto doloroso com a realidade que compreendemos o quanto, de fato, fomos ingénuos. A máscara da confiança desmorona, revelando, em toda a sua crueza, a figura patética e ridícula que outrora assumimos sem o percebermos. É inevitável o sentimento de vergonha que nos invade, uma vergonha íntima, não tanto pelo erro em si, mas pela maneira como nos deixámos arrastar, voluntariamente ou não, pelas tramas da mesquinhez humana.
O que mais magoa, porém, não é apenas o erro ou a ilusão, mas a constatação de que, por trás de muitas das pequenas e insignificantes ofensas que nos afligem, está algo tão vulgar como o ciúme, uma inveja sem propósito, uma competição desnecessária por coisas que, no fundo, não têm valor real. Um ciúme do quê, afinal? De nada. De migalhas emocionais, de aparências, de um vazio que, sob escrutínio, revela-se ainda mais ridículo.
Quando, por fim, conseguimos reunir todas as peças dispersas deste quebra-cabeças emocional e olhamos, com a clareza que o tempo nos concede, para o quadro completo, a sensação que nos assola é, inevitavelmente, de tristeza. Não uma tristeza passiva, mas uma mágoa profunda, que advém da percepção de que aquilo que nos feriu – aquilo que nos fez agir de forma absurda, às vezes patética – não era, em essência, senão uma manifestação da pequenez humana, da fragilidade dos egos alheios e, por vezes, do nosso próprio.
Talvez o verdadeiro desafio da maturidade seja aprender a reconhecer que somos, todos nós, atores numa peça que oscila entre o trágico e o ridículo, e que é precisamente nesse palco, onde tantas vezes desempenhamos o papel de idiotas, que reside a nossa vulnerabilidade mais profunda. E, paradoxalmente, é também essa vulnerabilidade que nos torna, em última instância, humanos.
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