"Foi no Caos que Ouvi o Meu Nome"

Foi no caos que ouvi chamar o meu nome.

Não foi num templo resplandecente, nem num momento de euforia espiritual.

Foi no abismo, no lugar escuro onde as palavras se tornam gritos silenciosos e o coração, ao invés de fugir, se ajoelha.

Ali, no mais íntimo da dor, a Voz falou-me — com ternura firme, com autoridade serena, com amor eterno.

E eu, mulher de fé e de carne, chorei.

Mas não chorei de desespero.

Chorei de reconhecimento.

No silêncio, orei. Com confiança. Com respeito. Com cumplicidade.

Não um silêncio de ausência, mas o silêncio sagrado da presença.

Aquele silêncio que aprendi na Igreja Católica — silêncio que não é vazio, mas espaço.

Espaço onde Deus entra. Onde Deus fala. Onde Deus transforma.

Não pedi milagres estrondosos. Pedi força. Pedi sabedoria. Pedi ombros firmes para a cruz que me estava a ser confiada.

E Deus, que tudo vê, enviou-me aquilo que não esperava, mas de que verdadeiramente precisava: pessoas, situações, provações, e bênçãos escondidas sob o véu da dor.

Aceitei os desígnios de Deus — e no aceitar, encontrei liberdade.

Ele utilizou pessoas — e usou-as com precisão divina.

Algumas feriram, outras curaram.

Mas todas ensinaram.

E hoje compreendo: há lições que a alma só aprende através do mistério do sofrimento aceitado com fé.

Se a vida fosse fácil, talvez eu nunca tivesse rezado como rezei.

Se tudo corresse como eu queria, talvez nunca tivesse conhecido a vontade d’Ele.


Pedi a intercessão da Virgem Maria.

E Maria, na sua bondade de Mãe, não tardou.

Ela, que sabe o que é ver um Filho sofrer, veio ter comigo como Mãe das Dores, mas também como Rainha da Paz.

Não afastou a cruz — ajudou-me a carregá-la.

E nos seus olhos de mulher forte, vi um reflexo do que também eu podia ser.

A sua presença não gritou — sussurrou.

E nesse sussurro maternal, encontrei abrigo.

Foi Ela quem me conduziu à paz: não uma paz superficial, mas a paz que nasce da entrega total a Deus.

Carreguei a cruz com lágrimas nos olhos — mas com a alma serena.

Não nego as lágrimas.

Foram muitas. São preciosas.

São o baptismo da dor aceite, o perfume da fé vivida, o sal da terra que ainda espera a redenção.

Mas as lágrimas não me derrotaram — purificaram-me.

E a cruz, longe de ser castigo, revelou-se caminho de salvação, de crescimento, de união com Cristo.

Porque a verdadeira paz não vem da ausência de problemas —

vem da presença de Deus no meio deles.

Conclusão – A Voz que Me Chamou no Meio do Caos

Hoje, olhando para trás, vejo um itinerário de graça.

Uma história escrita com lágrimas, mas também com luz.

Com silêncio, mas cheio de Palavra.

Com fragilidade, mas sustentado pela força de Deus.

E compreendo, com humildade e espanto, que foi no caos — e só no caos — que fui capaz de escutar a Voz que me chamou pelo nome.

Porque Deus, na Sua pedagogia divina, escolhe os momentos improváveis para nos tocar o coração.

E é na Igreja — firme, materna, fiel — que aprendi a ler esses sinais, a acolher esses silêncios, a carregar essas cruzes.

Sou mulher de fé.

E por isso, sou forte.

Porque a minha força não vem de mim — vem d’Ele.

E quando a vida voltar a gritar, eu saberei: Deus ainda sussurra. E o Seu sussurro tem o poder de recomeçar tudo.


Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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