"Deus sonhou-me assim: imperfeita, livre e verdadeira"
Eu sei que Deus me sonhou muito antes de eu existir.
Não me sonhou perfeita, fria ou uniforme, mas única, marcada de imperfeições que me tornam humana, viva, real.
Ele conhece as minhas quedas, as minhas contradições, os momentos em que duvido, questiono, luto comigo mesma — e ama-me ainda assim.
“Ainda antes de te formares no ventre materno, Eu te conheci.” (Jeremias 1,5 – CV)
Ele ama-me não apesar das minhas imperfeições, mas através delas, porque é nelas que descubro quem sou, e sobretudo, quem Ele é.
Renunciar não é anular-me, é aprender a amar mais
Cresci a pensar que seguir Cristo era sobretudo renunciar, cortar, calar a minha voz, suprimir as minhas perguntas.
Hoje percebo que estava errada.
A verdadeira renúncia não destrói; liberta.
Renuncio, sim — mas renuncio ao que me impede de amar: ao orgulho que me fecha, ao medo que me paralisa, à pressa que me cega.
Mas não renuncio à minha história, à minha sensibilidade, às perguntas que me inquietam, porque são elas que me tornam autêntica.
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres.” (João 8,32 – CV)
Deus não quer cópias, nem máscaras
Creio com toda a força da minha alma que Deus não nos pede que sejamos todos iguais, não nos quer moldados em série.
Ele chamou pescadores, publicanos, doutores da Lei, mulheres simples, estrangeiras, pecadoras públicas — e a todos amou como eram.
“Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo.” (Mateus 5,13-14 – CV)
Ser sal e luz implica ser diferente, conservar a identidade que Ele mesmo nos deu.
As máscaras, as personagens que vestimos por medo de não sermos aceites, são um insulto à obra de Deus que é cada um de nós.
Na queda, Ele ama-me
É nas minhas quedas que descubro a ternura mais escandalosa de Deus.
Ele não se afasta; aproxima-se.
Não me lança em culpas que esmagam; ergue-me com um olhar que diz: “Levanta-te, filha, continua.”
“Nem Eu te condeno; vai e não tornes a pecar.” (João 8,11 – CV)
Foi esta a experiência de Pedro, que negou, chorou amargamente — e mesmo assim foi escolhido para confirmar os irmãos.
Não foi o mais perfeito que Cristo fez pedra da Igreja; foi o mais humano.
A vitória de Cristo: não em palcos, mas no coração
Cristo não me prometeu sucesso, riqueza, nem fama.
Prometeu-me uma vitória interior, mais difícil mas infinitamente mais bela: vencer-me a mim mesma, o medo, o ressentimento, a indiferença.
“No mundo tereis aflições; mas tende confiança: Eu venci o mundo.” (João 16,33 – CV)
Esta é a verdadeira vitória que Ele dá: amar mesmo quando dói, perdoar quando parece impossível, e permanecer livre por dentro mesmo quando por fora tudo desaba.
Ele quer reverência, não espectáculo
No templo, Ele não quer circo, nem palcos onde brilhe o nosso ego.
Quer silêncio que escuta, palavras que edificam, gestos que nascem do amor e não da vaidade.
“O zelo da tua casa me consome.” (João 2,17 – CV)
A fé não é um número de entretenimento; é um encontro vivo, sagrado, que exige respeito e verdade.
Na oração, na procissão, na liturgia: o centro é Ele, não nós.
O que renunciaram os apóstolos? Não foi vida; foi o viver só para si
Os apóstolos não fugiram da vida; abraçaram-na de forma nova.
Renunciaram à segurança das redes, à rotina da profissão, mas ganharam uma vida plena de sentido.
“E deixando tudo, seguiram-no.” (Lucas 5,11 – CV)
Não porque fossem masoquistas ou por medo, mas porque O amaram.
Seguiram-no por amor, não por imposição; por desejo de algo maior, não por terror do castigo e nunca deixaram de ser quem Deus os fez só aprenderam a amar mais, perdoar e a misericórdia.
Ser cristã é ser autêntica
De que serve dizer que sou cristã se não perdoo? Se não amo?
“Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso.” (1 João 4,20 – CV)
A autenticidade cristã não está em cumprir ritos de fora, mas em deixar que Cristo viva dentro de mim, com tudo o que sou: fragilidade, sensibilidade, inteligência, dúvidas, alegrias e a luta constante contras as minhas sombras.
Na Bíblia, vejo um Deus que quer perguntas, não servas cegas
Maria pergunta ao anjo: “Como será isso?” (Lucas 1,34 – CV).
Abraão questiona Deus por Sodoma.
Jó debate-se e protesta.
Deus não se irrita com perguntas honestas; irrita-se com a hipocrisia de quem finge que já sabe tudo.
Deus sonhou-me livre
E nesta liberdade, chamo-O Pai, e sigo-O não como escrava, mas como filha amada.
Não porque tema ser castigada, não receber bênçãos ou ser vitoriosa, mas porque o Amor d’Ele me seduz e me transforma.
“A lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma.” (Salmo 19,8 – CV)
Conclusão: Ele ama-me imperfeita — e chama-me a amar assim também
Hoje sei que Ele me quer assim: viva, imperfeita, questionadora, mas sempre com o coração voltado para Ele.
Que a minha renúncia seja apenas àquilo que me impede de amar mais;
Que o meu culto seja reverência verdadeira, não espectáculo;
Que a minha vida seja, toda ela, uma oração autêntica, única — a minha.
“Deus é amor. Quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.” (1 João 4,16 – CV)
Escrevo todos os dias, mas não publico, faço por opção. Hoje sinto que devo fazer a partilha do que aprendi, a minha reflexão pessoal. Sinto em meu coração que devo fazer hoje. Um dia muito feliz com muita saúde.
Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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