"Entre a vulnerabilidade e o lume: a tessitura invisível do existir"
Permitam-me que me confesse, não como quem procura indulgência ou aplauso, mas como quem ousa, num acto deliberado de honestidade intelectual e sentimental, perscrutar as dobras mais recônditas da própria consciência. Sou, incontornavelmente, a soma imperfeita das minhas hesitações, quedas e contradições; uma equação inacabada, composta de dúvidas que me rasgam e de sonhos que me recompõem. É nesse espaço vulnerável, tantas vezes povoado pelo medo e pela exaustão, que se revela, paradoxalmente, o lume que, sem o saber, pode incendiar a coragem de outros.
É uma constatação ao mesmo tempo desconcertante e sublime perceber que na fragilidade reside uma potência transformadora. Sempre julguei que a força fosse filha da solidez, da coerência inquebrantável, da palavra assertiva; contudo, descubro, pela experiência e pelo olhar silencioso de quem me observa, que é no vacilar, no hesitar, no cair e reerguer que reside a autenticidade mais luminosa. Há, de facto, quem olhe para mim não apesar das minhas falhas, mas precisamente através delas; quem encontre no meu passo inseguro uma confirmação íntima de que a vulnerabilidade não é ausência de valor, mas antes a sua expressão mais humana.
Nessa constatação há uma beleza quase trágica: aquilo que tantas vezes vivo como insuficiência ou fracasso converte-se, para outros, num testemunho de possibilidade. É como se as minhas cicatrizes, em vez de serem meros sinais de dor, fossem inscrições sagradas de um percurso que se faz, não por ter chegado ao cume, mas por ter ousado continuar, mesmo na vertigem do abismo. Compreendo, assim, que a experiência humana é radicalmente relacional, feita de ecos invisíveis, de correspondências misteriosas entre almas que se não conhecem, mas que se tocam no plano secreto da esperança partilhada.
É um pensamento que me comove e me responsabiliza: a consciência de que, mesmo sem saber, posso ser chama para quem anda às escuras. Essa chama não nasce da perfeição, mas do acto de permanecer fiel a quem sou, mesmo quando ser quem sou significa ser falível, frágil, cansada. É, pois, na assunção serena e digna dessa fragilidade que encontro uma força mais duradoura: não a força arrogante que pretende dominar tudo, mas a força humilde que sabe permanecer, mesmo trespassada pela incerteza.
É por isso que defendo, convictamente, que o sentido da vida não se esgota na posse de um destino fixo ou de respostas definitivas, mas antes se consuma no “ir” – esse movimento interior e exterior que é, ao mesmo tempo, procura, revelação e criação. Ir, mesmo quando não sei exactamente para onde. Ir, porque é no próprio acto de caminhar que me vejo, revejo e, sobretudo, me revelo a mim mesma. É nesse movimento, por vezes hesitante, que a vida se faz viva: não como certeza, mas como fidelidade ao gesto de continuar.
E, ao continuar, descubro que não sou apenas devedora das minhas forças, mas também das minhas fragilidades. É nelas que encontro a capacidade de sentir empatia, de reconhecer a dor do outro, de estender a mão não de um pedestal, mas do mesmo chão. É essa humanidade nua que me permite ser, involuntariamente, lume para outros caminhos. Não porque tenha respostas infalíveis, mas porque carrego em mim o testemunho sincero de quem sabe que a vida, mesmo feita de escombros, merece sempre ser reconstruída.
Dir-se-á, talvez, que esta perspectiva é ingénua ou excessivamente lírica; mas creio, antes, que ela emerge de uma experiência profunda da condição humana, marcada por uma consciência lúcida da nossa finitude. Somos finitos, sim; mas é precisamente por sermos finitos que cada gesto, cada palavra, cada passo adquire um peso quase infinito na vida de alguém. É nessa aparente contradição que encontro sentido: somos pequenos, mas podemos, pela nossa entrega autêntica, tocar destinos muito para além do nosso horizonte.
Sei bem que não sou indispensável ao mundo. A humildade exige que reconheça essa verdade. Mas sei também que sou, para alguns, ainda que invisivelmente, uma presença necessária. E essa consciência, longe de alimentar vaidade, desperta antes uma gratidão profunda e uma responsabilidade suave: a de não abdicar de ser quem sou, mesmo trémula, mesmo desfeita, mesmo temendo fracassar. Porque não é na força bruta que se acende o lume da esperança, mas na chama vacilante que, mesmo ameaçada pelo vento, insiste em arder.
Termino, pois, reafirmando a convicção que a vida só se cumpre plenamente quando ouso habitar a minha vulnerabilidade com dignidade, quando aceito que o meu percurso vale não por ser impecável, mas por ser honesto. E é nessa honestidade, tantas vezes atravessada pela dor e pela incerteza, que acabo por tocar, mesmo sem saber, corações que esperavam apenas ver alguém que continua, apesar de tudo.
E é por isso que vou, que continuo a ir – porque é nesse “ir” que me descubro viva, inteira na minha imperfeição, e, quem sabe, farol breve mas real para alguém que, na sombra, procura também coragem para dar o próximo passo.
Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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