"Maternidade."
Entrar no hospital para dar à luz é como comprar um bilhete de ida para um parque temático do terror, mas sem saberes bem em que atração vais parar. Podes acabar num passeio calmo (duvido!), numa montanha-russa descontrolada, ou, como foi o meu caso, numa espécie de casa assombrada onde os sustos vêm de onde menos esperas e a tua dignidade? Essa foi deixada à porta, entregue à rececionista como quem entrega o casaco num restaurante.
Primeira experiência: A Cesariana Emergencial – Quando o bebé decide fazer uma saída dramática
Tudo começou com a ilusão de que ia ter um parto natural. Porque sim, eu também caí na armadilha do "tu consegues, mulher!", com aqueles vídeos motivacionais onde as mães parecem deusas terrenas, suadas, mas gloriosas, e com música relaxante ao fundo. Claro, não me avisaram que a realidade estaria mais próxima de um episódio de "House" com direito a uma cesariana de emergência.
Ali estava eu, cheia de otimismo, já a meio de horas de trabalho de parto que me fizeram questionar todas as minhas escolhas de vida. "Respira, vai correr bem," diziam-me. Pois, fácil para quem não está a sentir um mini-humano a tentar descer por um túnel que, honestamente, pareceu ter ficado mais apertado de propósito só para dificultar as coisas. As contrações vinham e iam, numa sinfonia de dor e desespero, enquanto eu tentava manter um ar de "sou forte". Mas vamos ser sinceros: a única coisa que eu queria era uma epidural, uma cama macia e talvez umas férias no Havai.
Foi então que o ambiente mudou de repente. O bebé, aquele ser amoroso que até então se estava a comportar como um hóspede indesejado no meu útero, decidiu complicar as coisas. O coraçãozinho parou, e o pânico instalou-se na sala. As enfermeiras que até ali estavam a fazer trocas de turnos e a rir-se das suas vidas pessoais começaram a lançar olhares nervosos umas às outras. E eu? Eu estava ali, a pensar: "Bem, isto já está oficialmente a correr pior do que imaginei."
O médico surge do nada, como se fosse o protagonista de uma série de emergência, e de repente sou colocada numa maca e empurrada pelos corredores como se estivéssemos numa corrida de Fórmula 1. A minha dignidade? Ah, essa já tinha sido perdida algures quando estava a gemer como uma vaca a ser ordenhada.
Finalmente chego à sala de operações, e sou apresentada ao anestesista, o único homem que, naquele momento, parecia ter a chave para o meu alívio. "Só vais sentir uma picadinha," disse ele, com a calma de quem não vai ser aberto ao meio em breve. Picadinha? Não sei que tipo de mosquitos ele andava a ver, mas aquilo era mais como se alguém estivesse a desativar o meu sistema nervoso central com uma furadeira.
De repente, as luzes cirúrgicas estão a brilhar sobre mim, e uma equipa médica está a trabalhar com a precisão de um grupo de relojoeiros suíços. Senti tudo – o empurrão, o puxão – sem a dor, mas com a certeza de que algo estava a ser mexido dentro de mim de uma forma que eu preferia não saber. E depois, como num truque de mágica macabro, o bebé finalmente saiu. Sim, o pequeno ser estava fora, o alívio era real. Mas a única coisa em que conseguia pensar naquele momento era: "Vão costurar-me direitinho, certo? Não quero acabar com peças soltas."
E pronto, o bebé estava cá fora, eu estava viva (tecnicamente), e a minha dignidade? Olha, essa ficou lá atrás, quando entrei de maca, de perna aberta, sem esperança de retomar qualquer aparência de normalidade.
Segunda experiência: O Parto Mais Longo do Universo – Quando entras a uma quinta e o bebé só nasce no domingo, com sorte!
Depois da primeira experiência com a cesariana, achava que já tinha visto tudo. Ingénua. O universo, claro, tinha outros planos. Desta vez, foi-me oferecido o presente do "parto normal prolongado", que é basicamente o equivalente a uma maratona onde corres em círculos sem nunca ver a meta.
Entrei no hospital numa quinta-feira, cheia de esperanças. Achava eu que até ao final do dia já teria o bebé nos braços, talvez uma taça de champanhe, quem sabe até uma refeição digna. Que optimismo ridículo. O bebé, por sua vez, decidiu que quinta-feira era o início das suas férias uterinas e que só sairia quando estivesse bem descansado. E eu, bem, lá fiquei a trabalhar (literalmente) durante dias.
Na primeira noite, as contrações começaram suaves, como quem dá os primeiros passos numa aula de aquecimento. Até pensei: "Isto não está assim tão mau." Ah, mas a sexta-feira estava só a aquecer. Porque, a partir do meio-dia, a dor passou de "suportável" a "oh meu Deus, vou partir esta cama em dois".
Na sexta, as enfermeiras diziam com aquele tom de quem já viu de tudo: "Pode demorar um bocadinho". Um bocadinho?! Estava ali há tanto tempo que comecei a achar que iam mudar o nome da sala de partos para "Sala de Espera Eterna". E assim passei o sábado, um ser humano reduzido a uma máquina de grunhir e respirar, enquanto o relógio avançava mais devagar do que o parto.
Domingo chegou finalmente, e com ele o desejo de gritar "aleluia!" enquanto arrastava o meu corpo agonizante pelas horas que ainda faltavam. Por esta altura, a dignidade já estava morta e enterrada há muito tempo. Não só estava a ser observada por uma dezena de pessoas enquanto gemia como um animal ferido, como também tinha perdido qualquer noção de privacidade ou pudor. "Queres ver o que está a acontecer? Fica à vontade. Estás a pensar em meter a mão aqui dentro? Vai em frente." Já estava mais para espécime de laboratório do que para mulher em trabalho de parto.
E quando finalmente o bebé decidiu que, sim, estava na hora de nascer, o médico olha para mim com aquele ar sério e anuncia: "Vamos usar fórceps." Ah, claro, a cereja no topo do bolo. Se pensavas que o parto já tinha sido suficientemente humilhante, aí vêm os fórceps, essas ferramentas que parecem saídas da caixa de ferramentas de um mecânico de automóveis. Entre puxões dignos de uma competição de cabo de guerra, lá saiu o bebé, a um domingo à hora de almoço, como quem chega tarde para o brunch.
Olhando para trás, diria que o parto é uma experiência única, repleta de momentos de pura perda de dignidade. Não há nada de glorioso nisso. Tu gritas, sujas-te, abres as pernas mais vezes do que alguma vez imaginaste, e, no fim, ficas com a certeza absoluta de que qualquer noção de decoro ou elegância foi completamente aniquilada. Mas, ei, tens um bebé nos braços. E se isso não te faz esquecer que acabaste de ser arrancada do teu estado humano para te tornares numa verdadeira máquina de sobrevivência, então não sei o que o fará. A única coisa que posso dizer é amo meus filhos voltaria a passar por tudo e ser mãe é o que eu realmente eu gosto de ser.
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