"Reflexão."
A verdade é um conceito que, por vezes, desejamos desesperadamente acreditar, quase como se nas suas promessas residisse o antídoto para as inquietações que nos assolam. É curioso como, quando nos encontramos perante palavras bem articuladas, proferidas por alguém em quem depositámos a nossa confiança, o desejo de crer pode ser avassalador. Queremos, de facto, acreditar que essas palavras, essas promessas, são genuínas. Talvez porque na sua aceitação encontramos uma paz, ainda que temporária, que nos permite adiar o confronto com a realidade.
No entanto, há uma dissonância inevitável. Por mais que as palavras ecoem com a promessa de verdade, as ações – inescapáveis, concretas e impiedosas – revelam uma história diferente. As ações, quando observadas de forma crítica e minuciosa, traem aquilo que as palavras tentam encobrir. E, ainda assim, eu gostaria de estar errada. Sim, gostaria de não ser essa pessoa que, através da análise atenta, identifica as incongruências, as falhas, as contradições. Gostaria de não ter esse discernimento que tanto me esgota, de não ser capaz de ver para além da cortina de palavras cuidadosamente tecidas. Seria mais simples, mais leve, poder mergulhar no conforto da ignorância.
Mas a verdade, por mais dura que seja, revela-se sempre, não é? E, neste ponto, encontro-me diante de um dilema cruel. Por um lado, o meu coração, tolo e persistente, anseia por acreditar. Por outro, a minha mente, lúcida e analítica, reconhece o inevitável. A confiança, uma vez quebrada, dificilmente se repara. Não é algo que se costure com promessas; é algo que, como um vaso de porcelana, quando estilhaçado, não volta a ser o que era.
Se pudesse escolher, apagaria da minha memória essa sequência de eventos, essas palavras e gestos que, conjugados, pintam um quadro de desilusão. Gostaria de esquecer, simplesmente. Livrar-me do peso da desconfiança, da amarga sensação de que fui enganada, de que fui levada a acreditar em algo que nunca foi real. Gostaria, em última instância, de poder sentir aquela paz que, por vezes, as ilusões tão generosamente oferecem.
Contudo, aqui estou, consciente da minha realidade, da verdade que se impôs, e só me resta aceitar. Aceitar que o discernimento, embora doloroso, é também uma forma de proteção. Afinal, prefiro viver na verdade, por mais crua que seja, do que afundar-me em ilusões confortáveis que inevitavelmente desmoronam.
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